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União Europeia oferece vaga ao Canadá e acena para o Brasil e outros países

Presidente da Comissão Europeia apresenta título inédito ao premiê Mark Carney

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Circulavam rumores há dias, mas os eurodeputados se levantaram assim mesmo. Nesta quarta-feira (16), em Estrasburgo, no discurso anual sobre o Estado da União, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, virou-se para o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, sentado na primeira fila, e disse: "Gostaria de trabalhar com vocês para abrir a porta para que o Canadá seja o primeiro membro associado da União Europeia" —um título que, até esta quarta, não existia em nenhum tratado do bloco.

O gesto, segundo a própria UE, não deve ser exclusividade canadense. Bernd Lange, que preside a comissão de comércio do Parlamento Europeu, disse que o bloco deveria buscar o mesmo tipo de aproximação com outras potências médias —e citou nominalmente Brasil, Indonésia, Japão e Coreia do Sul.

O Reino Unido, que desde 2025 negocia um "reset" pós-Brexit com Bruxelas —já fechou um acordo sobre Gibraltar em julho e negocia agora entrada no mercado interno de eletricidade europeu—, é outro nome que ronda essa conversa.

O anúncio dá corpo a uma tese que Carney vem defendendo desde janeiro, quando discursou em Davos sobre a necessidade de "potências médias" se unirem diante da nova geopolítica comercial de Donald Trump.

Quando negociamos bilateralmente com uma potência hegemônica, negociamos a partir da fraqueza: aceitamos o que nos é oferecido", disse ele na ocasião. "Isso não é soberania.

É a performance da soberania, com subordinação de fato." Trump respondeu pessoalmente ao discurso, à época.

Assim como a China, o Canadá impôs tarifas retaliatórias aos Estados Unidos na guerra comercial de Trump —mesmo dependendo do mercado americano para cerca de 75% de suas exportações.

A paternidade do conceito de "membro associado", segundo o Le Monde, é do chanceler alemão Friedrich Merz, que o imaginou originalmente para a Ucrânia. Qualquer avanço formal exigirá aprovação unânime dos 27 países-membros.

As resistências já apareceram na própria sessão desta quarta: o eurodeputado Nicola Procaccini, do Fratelli d'Italia (Irmãos da Itália), partido de extrema direita da primeira-ministra Giorgia Meloni, acusou Von der Leyen de "se curvar" ao canadense.

Dez países, entre eles França e Itália, sequer ratificaram o Ceta, o acordo de livre-comércio UE-Canadá assinado em 2016.

Carney, por sua vez, foi comedido no vocabulário. Descartou buscar a adesão plena —o artigo 49 do Tratado da União Europeia reserva a filiação a Estados europeus— e passou a falar em "aliança única", pedindo apenas que os dez países pendentes ratifiquem o Ceta, o acordo comercial já em vigor entre os dois lados.

A reação de Trump não demorou. Na noite desta quarta, chamou a proposta de "ridícula" e ameaçou: se considerar isso um "ato hostil", vai impor "tarifas muito sérias" ou simplesmente parar de comercializar com a Europa.

Nesta quinta de manhã, a Comissão Europeia respondeu por intermédio do porta-voz de comércio, Olof Gill: a aproximação com o Canadá "não é dirigida contra ninguém.

Em Bruxelas, diplomatas já classificam a integração plena como "totalmente irrealista". No Canadá, o líder da oposição conservadora, Pierre Poilievre, resumiu a resistência doméstica: "Nunca seremos o 51º estado americano.

E nunca seremos o 28º estado da União Europeia.

O Canadá é apenas o primeiro teste de uma estratégia. A UE já namora outros parceiros.

A cúpula UE-Canadá em Montreal, marcada para 29 e 30 de outubro, deve mostrar se sobrou alguma coisa da euforia de Estrasburgo.

Dentro de poucos anos, a inteligência artificial vai inspecionar mercadorias na fronteira, decidir quais declarações de impostos são auditadas, despachar trens, vigiar pacientes em enfermarias e processar pagamentos bancários.

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