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Da imigração às urnas: brasileiros disputam eleições hoje nos EUA

Pelo menos sete candidatos de origem brasileira disputam as eleições legislativas estaduais nos Estados Unidos nesta terça-feira (3). Entre eles, Felipe Sousa-L

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Da imigração às urnas: brasileiros disputam eleições hoje nos EUA

Pelo menos sete candidatos de origem brasileira disputam as eleições legislativas estaduais nos Estados Unidos nesta terça-feira (3). Entre eles, Felipe Sousa-Lazaballet, na Flórida, e Lorena Betts, em Massachusetts, relatam como suas trajetórias de imigração e engajamento comunitário os levaram a concorrer a cargos públicos.

Um chegou aos Estados Unidos aos 14 anos, viveu 15 anos sem documentos e se tornou ativista pelos direitos dos imigrantes. A outra deixou o Brasil para trabalhar como au pair, precisou reconstruir a carreira profissional e encontrou na mobilização comunitária um caminho para a política americana.

As trajetórias de Felipe Sousa-Lazaballet, de 40 anos, e Lorena Betts refletem a diversidade de percursos que levaram brasileiros às urnas americanas. Eles estão entre os sete candidatos de origem brasileira que disputam vagas em assembleias legislativas estaduais nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas nesta terça-feira (3).

Todos são filiados ao Partido Democrata e concorrem em quatro estados: Massachusetts, Flórida, Connecticut e Nevada. Cinco já ocupam cargos legislativos e buscam a reeleição.

Felipe e Lorena tentam conquistar pela primeira vez uma cadeira em seus respectivos parlamentos estaduais.

Em entrevistas à RFI, eles relatam como suas experiências pessoais influenciaram suas decisões de entrar para a política e defendem uma maior participação dos imigrantes nas instituições americanas, em um momento de endurecimento das políticas migratórias do governo Donald Trump.

Nascido no Rio de Janeiro e criado em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, Felipe Sousa-Lazaballet cresceu em uma família de poucos recursos. Sua mãe, empregada doméstica, criava os filhos sozinha e chegava a trabalhar em três empregos.

A irmã mais velha decidiu emigrar para os Estados Unidos aos 18 anos, com a promessa de ajudar a família a superar as dificuldades financeiras. Anos depois, levou Felipe, então com 14 anos, para morar com ela.

Fui indocumentado por 15 anos", contou o candidato, que hoje disputa uma cadeira na Câmara dos Representantes da Flórida, pelo Distrito 42, na região de Orlando.

Foi durante os estudos no Miami Dade College que Felipe começou a participar dos movimentos em defesa dos chamados dreamers, jovens imigrantes que chegaram aos Estados Unidos ainda crianças.

Em 2010, participou da Trail of Dreams, uma marcha de Miami a Washington que reivindicava a regularização desses jovens. O movimento ajudou a pressionar o governo americano por medidas de proteção aos imigrantes, como o DACA, criado durante a presidência de Barack Obama, em 2012.

Quando pessoas comuns se organizam e lutam por uma justiça social, a gente consegue mudar as coisas", afirmou.

Posteriormente, Felipe trabalhou no atendimento às famílias das 49 vítimas do massacre na boate gay Pulse, em Orlando, em 2016, e aos sobreviventes do ataque. Também assumiu a direção executiva do Hope CommUnity Center, organização que, segundo ele, atende cerca de 35 mil imigrantes na região central da Flórida.

Naturalizado americano em 2021, ele decidiu disputar um cargo público após a reeleição de Donald Trump, em 2024. O convite para concorrer veio da deputada estadual democrata Anna Eskamani, impedida de buscar um novo mandato pelo limite de tempo no cargo.

Eu comecei pela minha mãe, pelas pessoas trabalhadoras, pelos imigrantes, pelas pessoas LGBTs, pelas mulheres, por todos que estão se sentindo marginalizados", explicou.

Se eleito, Felipe poderá se tornar o primeiro brasileiro a ocupar uma cadeira na Câmara Estadual da Flórida.

A trajetória de Lorena Betts começou de maneira diferente. Natural de Mato Grosso, ela trabalhava como enfermeira em Holambra, no interior de São Paulo, quando surgiu a oportunidade de viajar para os Estados Unidos, em 2011, por meio de um programa de au pair.

Depois de se casar e decidir permanecer no país, descobriu que não poderia exercer a profissão sem revalidar sua formação brasileira.

Meu diploma do Brasil de Enfermagem não era possível ser transferido pra cá, não era reconhecido aqui. Então eu recomecei fazendo curso de intérprete e tradutora, mas com foco em jurídico", contou à RFI.

A mudança profissional a aproximou das dificuldades enfrentadas por outras famílias de imigrantes. Lorena passou a trabalhar como intérprete no Tribunal de Imigração de Boston, além de prestar assistência linguística em escolas e entrevistas relacionadas à obtenção do green card, documento de residência permanente nos Estados Unidos.

A experiência despertou seu interesse pela participação política e pelo acesso das comunidades imigrantes aos serviços públicos.

O trabalho voluntário a aproximou do senador estadual Jamie Eldridge, que se tornou seu mentor político. Mais tarde, ela trabalhou como assessora legislativa de Danillo Sena, brasileiro eleito deputado estadual em Massachusetts.

Lorena também fundou uma organização não governamental voltada à educação cívica, para ensinar moradores a acompanhar projetos de lei, entrar em contato com seus representantes e participar das decisões políticas.

Ela associa esse engajamento à história da própria família no Brasil. "Aprendi muito sobre engajamento cívico, voltando às minhas raízes no Brasil, de ter sido criada por um pai e uma mãe que cresceram durante a ditadura militar no Brasil.

Durante o segundo mandato de Donald Trump, Lorena passou a organizar manifestações do movimento No Kings, que protesta contra o que seus participantes consideram tendências autoritárias do governo americano.

Segundo a candidata, os atos reuniram milhares de pessoas em pequenas cidades de Massachusetts e contribuíram para a formação de grupos de mobilização política.

Foi nesse contexto que surgiu o incentivo para disputar uma cadeira na Câmara Estadual, pelo 16º Distrito de Middlesex, que inclui partes de Lowell e Chelmsford.

A comunidade pediu pra eu entrar quando veio a época de se candidatar. 'Nós queremos alguém do nosso meio... precisamos de alguém que realmente sente essa urgência'", relatou.

Em setembro, Lorena venceu a primária democrata com pouco mais de 70% dos votos, superando o vereador Corey Robinson, de Lowell. Agora, enfrenta a republicana Karla Miller na eleição geral.

Apesar das trajetórias distintas, os dois brasileiros apresentam propostas concentradas em problemas cotidianos dos eleitores, especialmente moradia, educação e acesso à saúde.

Na Flórida, Felipe afirma que sua equipe bateu em aproximadamente 40 mil portas e identificou três preocupações principais entre os moradores: educação, custo de vida e imigração.

O candidato defende mais investimentos nas escolas públicas, melhores salários para professores e ampliação do Medicaid, programa de assistência médica destinado principalmente à população de baixa renda.

O custo do seguro da propriedade aumentou quarenta por cento desde 2022. O nosso salário não aumentou quarenta por cento", afirmou.

Em Massachusetts, Lorena também coloca a crise habitacional entre suas prioridades. Ela relata que famílias jovens encontram dificuldades para comprar ou alugar imóveis, enquanto moradores idosos enfrentam o risco de perder suas casas por não conseguirem pagar financiamentos e impostos.

A candidata defende a ampliação do acesso à saúde, investimentos em energia sustentável e mais recursos para a educação pública.

Minha principal plataforma é igualdade social, sempre buscando priorizar as comunidades, as famílias trabalhadoras e as pessoas que realmente são geralmente ignoradas pela sociedade", explicou.

Lorena observa que muitos trabalhadores americanos enfrentam dificuldades financeiras mesmo acumulando mais de um emprego. "Educação é fundamental, é o alicerce.

Tanto Felipe quanto Lorena destacam a importância das visitas às residências como estratégia de campanha.

Na Flórida, Felipe afirma que procura ouvir as preocupações dos moradores antes de apresentar suas propostas.

A gente não vai na porta e fala: 'Vota pro Felipe'. A gente vai na porta e fala: 'Qual é a sua preocupação principal? O que que você acha que a gente deveria tá lutando?'", explicou.

Lorena relata uma experiência semelhante em Massachusetts. Segundo ela, sua equipe visitou mais de 13 mil residências, com apoio de voluntários e financiamento baseado principalmente em pequenas doações e eventos comunitários.

Foi uma campanha de realmente priorizar a conexão com as pessoas, batemos em mais de 13 mil portas aqui no distrito, uma comunidade de voluntários muito dedicados.

Para a candidata, a mobilização também trouxe de volta pessoas que haviam se afastado da política.

Vemos muitas pessoas que não se engajavam na política anteriormente e agora estão se engajando nessa nossa campanha, sentindo aquele senso de esperança novamente.

A origem brasileira e a experiência como imigrantes também influenciam a maneira como os dois candidatos enxergam a política americana.

Felipe afirma que tem sido alvo de ataques de sua adversária republicana, Bonnie Jackson. Segundo ele, Jackson tenta apresentá-lo como alguém de fora e questiona sua identidade americana.

A minha história é uma história muito americana, a história do imigrante que veio do nada, chegou aqui nos Estados Unidos e construiu uma vida", rebateu.

O candidato considera que o endurecimento das políticas migratórias não afeta apenas pessoas sem documentação, mas também cidadãos americanos de origem latino-americana.

Ele também defende uma mudança de estratégia no Partido Democrata, derrotado nas eleições presidenciais de 2024.

A minha crítica pro Partido Democrata é que a gente tem que escutar melhor os votantes. As pessoas estão sendo claras: 'Como é que você vai melhorar a minha vida?'", afirmou.

Lorena, por sua vez, associa sua entrada na política à defesa da democracia e dos direitos constitucionais. Para ela, as manifestações contra o governo Trump mostraram que havia espaço para ampliar a participação política em comunidades que tradicionalmente não se envolviam nas disputas eleitorais.

A candidata acredita que a insatisfação com o governo federal poderá influenciar as eleições estaduais e locais, mas reconhece que o resultado de sua disputa permanece incerto.

As candidaturas de Felipe e Lorena fazem parte de uma presença brasileira já estabelecida em alguns Legislativos estaduais americanos.

Além dos dois estreantes, outros cinco políticos de origem brasileira disputam a reeleição: Priscila Sousa, Danillo Sena e Rita Mendes, em Massachusetts; Farley Santos, em Connecticut; e Elaine Marzola, em Nevada.

Na região metropolitana de Orlando, onde vive uma comunidade brasileira estimada em cerca de 200 mil pessoas, segundo dados consulares citados por Felipe, o candidato considera que a participação política ainda está aquém do tamanho da população.

Embora nós sejamos muitos, não temos representação política", afirmou, referindo-se à sua região e à necessidade de ampliar a presença de brasileiros nas instituições locais.

Lorena também defende que os imigrantes conheçam melhor o funcionamento das instituições americanas e participem das decisões que afetam suas comunidades.

Estou me sentindo muito esperançoso, porque a pauta que estou trazendo é muito baseada no que o distrito está querendo", disse Felipe.

Para Lorena, independentemente do resultado, a campanha já contribuiu para aproximar novos participantes da política local.

Em números

  • Direção executiva do Hope CommUnity Center, organização que, segundo ele, atende cerca de 35 mil imigrantes na região central da Flórida
  • Na Flórida, Felipe afirma que sua equipe bateu em aproximadamente 40 mil portas e identificou três preocupações principais
  • Segundo ela, sua equipe visitou mais de 13 mil residências, com apoio de voluntários e financiam

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