Em entrevista à Rolling Stone Brasil, cantora apresenta disco que une ancestralidade afro-indígena, ritmos brasileiros e memórias dos territórios.
A cantora e compositora Héloa prepara um novo capítulo de sua trajetória musical com Árida, álbum que propõe um olhar sobre o sertão brasileiro para além dos estereótipos de seca e escassez.
Em entrevista à Rolling Stone Brasil, a artista fala sobre a construção do disco, suas referências ancestrais e a importância de valorizar os povos que mantêm vivas as tradições culturais do semiárido.
O trabalho marca o terceiro capítulo de uma trilogia iniciada com Opará e aprofundada em ID, projetos que acompanham sua investigação sobre identidade e território.
Se o primeiro álbum, Eu, nasceu de um processo de descoberta pessoal após sua chegada a São Paulo, os trabalhos seguintes representam um movimento de retorno às próprias raízes.
Em Árida, essa busca ganha novos contornos a partir das vivências da cantora no sertão de Sergipe e em regiões do Cariri. A artista questiona a associação do semiárido à ausência de vida e destaca a riqueza cultural e a resistência presentes nesses territórios.
A pesquisa musical de Héloa atravessa as sonoridades do candomblé, dos povos indígenas e das diferentes matrizes culturais que formam a identidade brasileira.
Os tambores dos terreiros e os cantos do povo Kariri-Xocó, ligado à história de sua família, aparecem como referências importantes na construção do álbum.
A criação coletiva também ocupa um lugar central no projeto, que reúne participações de artistas como Luedji Luna, Mestrinho, Jorge do Peixe, Maestro Spok, Thiago Santana e integrantes de grupos indígenas.
O disco estabelece ainda conexões com Angola por meio das participações de Jéssica Areias e Lil Kid.
O primeiro single, “Dança Nixi Dança”, celebra a dança como expressão cultural e reúne referências do samba, do semba e de palavras de origem banto. “Eu acho a dança uma tecnologia incrível nesses povos”, explica.
Produzido por Yuri Queiroga, companheiro de vida e de trajetória musical da artista, Árida percorre sonoridades como forró, baião, rap, rojão, afrobeat e reggae.
A diversidade de referências acompanha a proposta de construir um retrato musical das conexões entre as culturas afro-indígenas e outras tradições presentes no Brasil.
O álbum traz releituras de canções como “Flor do Mandacaru”, de Chico César, e “De Amor Eu Morrerei”, de Domingos e Anastácia. Na primeira, a participação de Mestrinho reforça as memórias compartilhadas pelos artistas sobre Sergipe e o Rio São Francisco.
A dimensão visual também é importante no projeto. Formada em artes visuais, Héloa assina a direção criativa e visual do álbum, que reúne imagens registradas em terreiros, no sertão e na Ilha do Ferro, entre Sergipe e Alagoas.
O videoclipe de “Acenda Essa Fogueira” foi gravado em território indígena, com participação do grupo Sabuká Kariri-Xocó. Para a artista, mostrar esses espaços a partir do olhar de quem vive neles é parte fundamental do trabalho.
Um convite a rever o olhar sobre o sertão.
Héloa espera que o álbum provoque uma transformação na maneira como o público enxerga o semiárido brasileiro. A artista defende que conhecer esses territórios exige disposição para abandonar imagens previamente construídas.
Ao falar sobre o que deseja que o público compreenda após ouvir Árida, a cantora reforça a diversidade dos povos, das paisagens e das experiências que existem no sertão.
E conclui: “Eu posso garantir que o sertão brasileiro ele é imenso, e ele é gigantesco, ele não é nada seco, ele é fruto, é muito fruto, é muita beleza, é muita cor, é muita vibração”.
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