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Economia

Analistas veem meses de tensão fiscal após reação do mercado a Lula

Especialistas apontam temor fiscal e dúvidas sobre a equipe econômica

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Economia — imagem padrão

A surpreendente reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para um quarto mandato na Presidência mexeu com os humores do mercado financeiro no primeiro pregão depois do pleito, comportamento que deverá se manter por alguns meses e colocará ainda mais pressão sobre as medidas de ajuste fiscal prometidas pelo governo.

Além do desenho desse pacote de ajuste que promete buscar o centro da meta de superávit primário, as atenções de investidores e empresas se voltam agora para a definição da nova equipe econômica.

O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, cresceu entre as apostas para a pasta, mas o vice-presidente Geraldo Alckmin e um nome com reconhecimento no mercado seguem no páreo.

A questão política também se impõe. Com um Congresso mais à direita a partir de 2027, algumas medidas de transição teriam mais chances de passar se discutidas ainda neste ano.

Para Adriana Dupita, economista-chefe adjunta para mercados emergentes da Bloomberg Economics, um período conturbado vem pela frente.

O desafio, segundo ela, é "conduzir o orçamento público a um superávit grande o suficiente para estabilizar a dívida pública do país, que é alta e crescente", em meio às promessas feitas durante a campanha, a uma base de eleitores dividida e a um Congresso potencialmente hostil.

O mergulho da Bolsa na segunda (27) refletiu a frustração de investidores que precificaram uma vitória de Flávio Bolsonaro (PL), apesar de pesquisas apontarem empate técnico.

Nessa perspectiva, a queda dramática em preços de ativos e a disparada de juros futuros eram tidas como certas. Em relatório publicado no início da madrugada de segunda, ela escreveu que há pouco motivo para o investidor desfazer posições compradas após o resultado do primeiro turno.

Dupita diz que os investidores temiam que o presidente, de inclinação esquerdista, "não respeitasse a independência do Banco Central, nomeasse uma diretoria mais branda ou reduzisse a eficácia da política monetária com o excesso de crédito subsidiado.

Ela observa, porém, que a política monetária no terceiro mandato de Lula foi restritiva.

Na avaliação do economista André Perfeito, o comportamento do mercado lembra o cenário de 2002, quando Lula venceu sua primeira eleição para presidente da República.

Como naquela época, ele prevê alguns meses de mal-estar até que o mercado se estabilize. Até lá, diz, o investidor pode se proteger em CDBs de bons bancos e em títulos pós-fixados.

Para Perfeito, o mercado reage hoje porque teria que voltar à sexta-feira que antecedeu o primeiro turno. Naquele momento, a euforia de investidores levou à alta da Bolsa e à queda do dólar.

O que o mercado projetava àquela altura era, além da eleição de Flávio Bolsonaro, o início de uma temporada liberal na economia, somado a um Congresso predominantemente à direita.

A economista Daniela Cardoso Pinto, professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), também espera uma reação negativa inicial, uma vez que Flávio Bolsonaro prometia cortar impostos e aprovar a contratação de trabalhadores por hora, o que animava o empresariado.

Na avaliação dela, o mercado deve responder mal por alguns meses, até se reacomodar.

Daniela afirma que o ajuste fiscal terá de acontecer, mas que o enxugamento de despesas tende a ser difícil diante do grau de bondades anunciadas por Lula nos últimos meses, que resultarão em gastos pelos próximos anos.

É o caso da elevação do teto de faturamento dos MEIs (microempreendedores individuais) (anúncio que incluiu perdão de dívidas) e do reajuste do Bolsa Família, por exemplo.

O que pode ajudar é que a Selic deve cair ou ficar estável, não havendo novas pressões inflacionárias como guerra. Caindo juro, a dívida também cai", afirma.

Ela vê chances, ainda, de o país começar a sentir os efeitos positivos de acordos de transferência de tecnologia costurados pelo Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) com empresas chinesas, coreanas e alemãs.

Continuando o mesmo governo, a tendência é muito boa, pois leva um tempo até os efeitos aparecerem", diz.

Para o economista José Francisco de Lima Gonçalves, professor da FEA-USP (Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo), os dois meses que antecedem o início do novo mandato devem ser dedicados mais às questões políticas e à costura de acordos pela governabilidade do que às urgências da economia.

Na avaliação dele, o encaminhamento da questão fiscal deverá ser tratado nesse arranjo político, do qual também devem fazer parte o mercado, o agronegócio e a indústria.

A reforma tributária, cujos primeiros efeitos começarão a ser sentidos em 2027, ajudará na melhora da arrecadação. Para Gonçalves, porém, o governo deverá buscar um novo equilíbrio na tributação, o que poderá passar pela desoneração de alguns setores e pela oneração de quem não paga ou paga pouco.

Ele considera ainda que o governo precisará lidar com o financiamento da Previdência Social, o que passa também por discutir o modelo do MEI e a dinâmica do mercado de trabalho.

Não tenho dúvida de que venha alguma coisa em relação a esses temas, não dá para desviar", afirma. "Mas não imagino que isso vire uma proposta de desvinculação [dos benefícios previdenciários do salário mínimo].

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