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Debate sobre juros tem tudo a ver com mobilização juvenil e popular que levou Lula à vitória, diz André

Cientista político afirma que pacote para bolso do eleitor, ruas mobilizadas e apoio de Janones foram chave da vitória de Lula, mas que avanço da direita radica

25 min de leitura
Mundo — imagem padrão

CarregandoCarregandoA vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições deste ano foi, em grande parte, sustentada pela mudança de postura do governo, que passou a dialogar com as necessidades reais da população.

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  32. Fazer loginBBC News, Vá para o conteúdo Seções Debate sobre juros tem tudo a ver com mobilização juvenil e popular que levou Lula à vitória, diz André SingerCrédito, Fernando Cavalcanti/BBCLegenda da foto, Ameaça à democracia não acabou porque a sociedade continua sem horizonte de futuro para si e para seus filhos, diz SingerArticle Information.

Extinguir as bets, reconhecer o alto preço dos alimentos e criar medidas com impacto direto no bolso da população foram iniciativas cruciais para a virada do primeiro para o segundo turno, analisa o cientista político André Singer, professor titular do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP).

Mas o autor do recém-lançado Impasse - O Brasil diante da onda reacionária (Companhia das Letras), dentre outras obras, afirma que, a despeito da vitória no Brasil e da mais recente derrota de Donald Trump nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, a democracia ainda corre risco.

Estamos diante de uma extrema-direita violenta e abertamente antidemocrática", afirma Singer em entrevista à BBC News Brasil.

Uma das explicações para o avanço da direita radical, segundo o pesquisador, seria o agravamento das desigualdades causado pela crise financeira de 2008, apontada como a pior recessão global desde a Grande Depressão de 1929.

De lá para cá, não importa muito quem vem ganhando as eleições: a vida das pessoas não está melhorando, defende Singer. "A sociedade continua com a corda no pescoço e sem horizonte de futuro para si e para os seus filhos", afirma.

Parte dessa população, portanto, se deslocou para a direita radical, que avançou muito nos últimos anos em todo o mundo.

A boa notícia que eu posso dar para quem é favorável à democracia, como é meu caso, é que a extrema-direita também não está encontrando solução para essas pessoas.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

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BBC News Brasil - A antropóloga Rosana Pinheiro Machado, que pesquisa também os efeitos da plataformização do trabalho, defende que uma nova classe aspiracional, que busca prosperar financeiramente e se frustra por considerar que suas necessidades não são contempladas pelas políticas públicas atuais, representa uma "bomba-relógio" que quase estourou nessas eleições.

Essa bomba está desarmada ou apenas sua explosão foi adiada.

André Singer - Vamos tomar essa imagem da bomba-relógio como ponto de partida. Eu diria que aconteceu uma coisa excepcional: ela, digamos, estourou no primeiro turno e "desestourou" no segundo.

Na verdade, ela foi revertida, como se o efeito dela tivesse virado ao contrário. E esse é o fenômeno incrível, porque nós temos que lembrar que o presidente Lula ganhou de Flávio Bolsonaro pelo dobro da diferença com que ele ganhou de Jair Bolsonaro em 2022.

Então, o final do processo é o inverso do que aconteceu no primeiro turno. E eu estou falando não apenas dos números, mas de uma interpretação política profunda do que aconteceu.

De tal maneira que a ideia da bomba-relógio é excelente, mas acho que o que aconteceu entre o primeiro e o segundo turno foi a reversão desse processo. O que não significa que a bomba tenha sido desativada, mas ela teve, do ponto de vista estritamente político, e quem analisa política precisa analisar cada conjuntura, uma reversão desse processo no segundo turno.

BBC News Brasil - E por quê? O que aconteceu? Já dá para apontar fatores concretos para essa reversão.

Singer - Foram três fatores. Começa com uma mudança de postura do presidente e, portanto, do caráter do governo. Esse talvez seja o aspecto menos notado. O presidente, a meu ver, mudou a campanha completamente em meados de setembro.

Na verdade, o marco específico é o comício de Porto Alegre em 11 de setembro, quando ele reconheceu que os preços do supermercado estavam caros, citando especificamente o café e a carne.

A partir daí, ocorre uma grande mudança. Ele começou a tomar medidas no sentido de dialogar com as necessidades da população. E talvez a mais emblemática tenha sido a proibição das bets.

Porque o que acontece aqui é uma confluência de diversos fatores: aumento do custo de vida, uma crise de endividamento das famílias e, em terceiro lugar, a epidemia das bets.

Não digo que seja só isso, mas em parte ocorre porque as pessoas estavam endividadas e tentavam conseguir uma renda extra para pagar suas dívidas. E o mecanismo das bets é feito para que a pessoa perca.

Então, a maioria dessas pessoas acabava mais endividada, numa situação muito angustiante.

Se olharmos para essa tríade, dá para perceber bem o que aconteceu. Claro que não foi só a proibição das bets. Houve uma série de medidas, até envolvendo os MEIs, o Desenrola 3, o reajuste do Bolsa Família, a aprovação do fim da escala 6x1, a [proposta da] tarifa zero no transporte público no fim de semana.

Nós tivemos um pacote que, na minha opinião, mudou o caráter do governo.

A isso se somou uma espécie de explosão social no segundo turno. Os jovens, sobretudo, foram em massa para as ruas num fenômeno que eu não via desde 2013. Diria até que é um fenômeno análogo [a 2013].

As manifestações da Avenida Paulista dos dias 11 e 24 de outubro são equivalentes à grande manifestação da direita pelo impeachment da presidente Dilma [Rousseff] em março de 2016.

BBC News Brasil - Mas essas grandes manifestações que ocorreram em 2013 e depois em 2016 eram contra algo: o aumento da tarifa ou o governo Dilma. Era muito difícil juntar gente na rua a favor de algo.

Singer - As manifestações que foram convocadas contra o governo Bolsonaro durante o final da pandemia não tiveram resultado. Nenhuma manifestação alcança a dimensão das que ocorreram nos dias 11 e 24 se elas não tiverem um conteúdo popular.

Você não enche a Avenida Paulista daquele jeito sem as camadas populares estarem envolvidas.

A grande novidade é que tem, de fato, um aspecto positivo e propositivo, que era pela reeleição do presidente Lula, mas vamos lembrar também que era muito contra a extrema-direita.

Havia um espectro da extrema-direita que quase se materializou no primeiro turno, porque, para a surpresa geral, uma vez que as pesquisas diziam o contrário, Flávio Bolsonaro ficou à frente por dois pontos percentuais.

Também essa postura de medo e de repúdio à extrema-direita foi muito importante naquelas manifestações. Essa é a dobradinha fundamental, entre a mudança da postura do governo e uma explosão social comparável à de 2013, com repercussões em 2016, porque a gente sabe que 2016 foi um pouco a continuação de 2013.

Junto com isso, houve a operação digital, vamos chamar assim, do Exército do Janones, que capilarizou este movimento para o país inteiro, porque uma coisa extraordinária foi o fato de que essas manifestações ocorreram em centenas de cidades.

Isso, num país continental como o Brasil, é muito significativo. Tivemos um movimento nacional raramente visto, de grande significado.

BBC - O senhor entrou no Exército do Janones.

Singer - Eu, pessoalmente, não participei, porque eu não sei operar isso e estava absolutamente concentrado no trabalho que eu tinha que fazer, mas eu acompanhei bastante.

BBC News Brasil - Pelo que se tem falado até agora, a eleição virou pela combinação de dois fatores: a mobilização social, inflamada pelo medo do avanço da direita radical, e medidas que afetam diretamente e imediatamente o bolso.

Singer - Exatamente, e é nesse sentido que digo que a eleição inverteu o efeito da bomba-relógio que explodiu no primeiro turno. De fato, o grupo que estava oscilando e queria decidir a eleição é esse grupo de eleitores que recebe de dois a cinco salários mínimos de renda familiar mensal, que é um grupo que escolhe de maneira pragmática, olhando para a sua situação, que é uma situação bastante difícil.

Evidentemente que não é tão difícil quanto a dos que estão na base da pirâmide social. Mas aqui precisa lembrar que os programas históricos do lulismo, como o Bolsa Família, protegem, de alguma forma, esse segmento mais vulnerável, por exemplo, no interior do país, no interior do Nordeste, onde o custo de vida é menor.

E esse setor de dois a cinco salários mínimos, em geral, tem que conviver com o custo de vida maior, que é o custo de vida metropolitano.

BBC News Brasil - O fim da jornada 6x1 foi algo que, desde o começo da campanha, Lula tentava muito aprovar para usar como plataforma. Qual é o peso dessa mudança.

Singer - Você tem razão de que tem muita gente que é informal, que são microempreendedores, já devemos mencionar o fato de que houve um pacote muito significativo para os microempreendedores individuais, dialogando diretamente com esse setor e essas necessidades.

Mas ainda tem um contingente importante de trabalhadores CLT. Às vezes, se tem a impressão de que todos viraram trabalhadores por plataformas, o que não é verdade.

É um contingente expressivo e talvez crescente, mas ainda há um enorme contingente de trabalhadores e empregados.

A medida da mudança da jornada de trabalho é fundamental, porque dialoga diretamente com essa juventude que foi para a rua. E essa juventude foi para a rua em parte porque percebeu que o governo tinha realmente se comprometido com essa medida.

BBC News Brasil - A campanha petista se favoreceu da defesa de Flávio Bolsonaro da negociação entre patrão e empregado? O senador também disse que, se ganhasse as eleições, mudaria a Constituição.

Singer - Ela se favoreceu bastante. Flávio Bolsonaro errou, do ponto de vista tático, ao desconsiderar que o primeiro turno não é o segundo. Ele não era o presidente e metaforicamente se sentou na cadeira antes da hora.

Esse é um erro que nenhum candidato pode cometer, porque é fatal. No caso dele, teve um preço alto.

Mas, além de ser um erro tático, há uma questão de fundo aí. Na verdade, a proposta do Flávio Bolsonaro era a de um contrato aberto de recebimento do trabalhador por horas trabalhadas, que ele combinaria, por livre vontade, entre aspas, com o empregador.

Isso significa simplesmente eliminar toda a proteção trabalhista, que é, no fundo, o que estava na cabeça dele, porque não é por acaso que ele passou toda a campanha até o primeiro turno falando que se mirava no [presidente da Argentina, Javier] Milei.

É uma posição ultraliberal. Quando ele vê a maré do movimento social, ele começa a recuar de todas as suas propostas, inclusive do exemplo do Milei, e dizer que ele ia manter todos os benefícios sociais, que se comprometia com o fim da 6x1 etc.

Mas o segundo turno da eleição teve um aspecto muito interessante para quem estuda comportamento eleitoral, que é mostrar que existe uma certa racionalidade no eleitor, porque o eleitor percebe, ele tem uma sensibilidade, sobretudo para o que lhe interessa diretamente.

Então, não foi só o erro tático logo depois do primeiro turno que, de fato, ele cometeu, mas também o conjunto.

BBC News Brasil - Lula foi reeleito, mas em toda a América a direita radical vem avançando muito nos últimos anos. Por que o discurso se radicalizou tanto? E é possível conter essa radicalização.

Singer - Não é o discurso que se radicalizou, é a ação. Estamos diante de uma extrema-direita violenta e abertamente antidemocrática. Aqui no Brasil, tivemos o caso máximo, que é uma tentativa de golpe de Estado.

Então, não é um problema de discurso, é um problema de fundo.

Por que isso acontece? Há um debate aberto. A minha hipótese é que o neoliberalismo, após o crash de 2008, agravou as desigualdades em todo o mundo. O neoliberalismo, de certa forma, faz com que o resultado da eleição não mude muito a situação de vida dessa parte da população.

Então, ganha A, ganha B, ganha C, ganha D, mas a sociedade continua muito com a corda no pescoço e sem horizonte de futuro para si e para os seus filhos.

Um bloco dessa população se deslocou para a extrema-direita e deu uma sustentação para posições de extrema-direita que seriam, em princípio, de estratos médios.

A derrota de Trump nas eleições de meio de mandato significa que, nos próximos dois anos, ele não vai ter o mesmo poder que teve nos dois primeiros. A vitória do presidente Lula no Brasil tem uma dimensão parecida, fazendo com que o quadro nas Américas, neste momento, fique mais equilibrado, criando um espaço de esperança, digamos assim, que tem que ser aproveitado, porque a ameaça não vai parar.

BBC News Brasil - Essa ida do Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos pode, de alguma maneira, interferir na retomada de relações do Lula com o Trump? Como essa ida do Flávio para lá pode interferir nas relações bilaterais.

Ele estava, obviamente, dialogando com o fato de que o candidato natural seria o Tarcísio de Freitas. E o Bolsonaro pai decidiu indicar o filho mais velho para deixar claro que é quem decidiu, e que ele queria ter na urna o nome dele.

O Flávio cometeu um terceiro erro ao sair do Brasil de uma maneira inteiramente desacreditada. Claro que deve ter bolsões bolsonaristas que acreditam que a eleição foi fraudada e que podem acreditar em coisas absurdas, mas são grupos pequenos.

A opinião pública brasileira é unânime em reconhecer, mesmo nos setores de direita, que a eleição foi completamente justa, que a prorrogação do prazo era necessária, porque havia dificuldades em várias cidades, como Salvador e São Paulo, tanto é assim que o PL entrou junto com o PT, com o mesmo pedido de extensão do prazo, o que desmonta completamente a hipótese de fraude.

O problema é saber o que vai acontecer daqui para frente. Porque agora começa lentamente um processo novo, que é o processo que vai dar no quarto governo do presidente Lula.

Crédito, Divyakant Solanki/EPA/Shutterstock.

BBC News Brasil - Olhando para 2030 e sucessão, dá para pensar em lições que dá para tirar dessa eleição de agora.

Singer - 2030 não está na mesa neste momento, porque tem muita coisa até lá. A única razão pela qual 2030 está na mesa é porque, em sistemas presidencialistas, quando acaba uma eleição, todo mundo começa a pensar na próxima.

E é normal que seja assim, porque faz parte do mecanismo previsto.

O governador [de São Paulo] Tarcísio Freitas [Republicanos] já está se mexendo para ser o candidato em 2030. Mas eu não identifico nada parecido do lado vencedor desta eleição.

O que eu acho que se pode tirar são conclusões a respeito do processo ocorrido entre o primeiro e o segundo turno e dos possíveis efeitos que isso vem a ter no quarto governo.

BBC News Brasil – A pergunta sobre sucessão é inevitável, dado que Lula não vai poder mais disputar. Tarcísio é um candidato natural, como já era até Bolsonaro decidir pelo Flávio.

Fernando Haddad nos deu uma entrevista na qual levantou a possibilidade de haver prévias no PT para presidente. Que é algo que não acontece há muito tempo no partido.

Singer - O mecanismo das prévias é sempre um bom mecanismo, eu acho. Ele é interessante, democrático, permite participação. Inclusive, rende eleitoralmente, porque ele já começa o processo.

Tudo depende de como as coisas estiverem postas no momento em que tiver que ser tomada essa decisão, mas, em princípio, acho uma boa ideia.

BBC News Brasil - Ainda falando sobre os campos com quem Lula deve dialogar, ele fez um discurso em Santa Catarina durante a campanha dizendo que o agro tinha que "se ajoelhar" a ele, em razão dos recursos e do volume de crédito disponibilizados pelo governo à agricultura.

Ao mesmo tempo em que o governo abre muito as portas no sentido financeiro, com o Plano Safra, por outro lado, o agro é, em grande parte, muito bolsonarista. Falta um diálogo com esse setor da sociedade.

Singer - Não acho que falte diálogo. O que eu acho que acontece é que realmente essa fração, vamos chamar assim, da burguesia, tem se encastelado numa posição muito contrária ao PT, ao lulismo, ao próprio presidente Lula.

Mas a gente tem que considerar o seguinte: o diálogo está aberto porque é visível, inclusive nesse terceiro mandato, que o governo trata esse setor da economia como um setor prioritário, porque ele é mesmo.

Da maneira como a economia brasileira está conformada hoje, ninguém que seja responsável pode desconhecer a importância do agro, é o setor mais dinâmico da economia brasileira.

O PT, o lulismo e as forças que se organizaram em torno do terceiro mandato do presidente Lula têm que ter no horizonte a reindustrialização do país. Não existe possibilidade de a gente dar o passo necessário para incluir a parte pobre do Brasil sem uma perspectiva de bons empregos.

E não é só o emprego CLT, é também a possibilidade de prosperidade para os trabalhadores que são hoje empreendedores individuais. Esse é o grande desafio histórico do Brasil.

Agora, como fazer a reindustrialização, aí sabemos que é um problema gigante, porque isso envolve questões internacionais e uma reorientação da economia que não é fácil de se fazer.

Mas, isto colocado como um elemento de grande transformação, o agro tem que estar junto. Não pode não estar junto, porque é o setor mais dinâmico, mais próspero da economia brasileira.

Nenhum governo que tenha o mínimo de responsabilidade vai deixar de dialogar com o agro.

Se você buscar nos jornais, não houve conflito com o agro durante o terceiro mandato do presidente Lula. Isso é um pouco uma construção. Chegado o momento da eleição, essa fração da burguesia se alinha, como se alinhou de novo, com o bolsonarismo.

E aí começa um problema sério. Porque tem muitos pontos de contato. De um lado, a ideia de que os conflitos sociais precisam ser tratados com mais dureza. Isso é uma tradição, porque é um setor da economia para o qual, por exemplo, evitar invasões de terras, ocupação de terras, é muito prioritário.

Ao mesmo tempo, é um setor que tem uma concepção, uma visão de mundo, por assim dizer, mais radical do que outras, dentro da própria burguesia. Mas é bom lembrar que, neste ano, 2026, a burguesia não se manifestou a favor do presidente Lula em nenhum dos seus setores.

Isso, inclusive, não deixou o agro tão isolado assim quanto ele poderia ter estado, por exemplo, em 2022.

Mesmo prestando atenção no movimento desse setor, tem vozes dizendo que não podemos continuar com essa opção de extrema-direita. Mas elas são minoritárias. Em outras palavras, houve um alinhamento do agronegócio com a extrema-direita no Brasil, o que é um tremendo problema para o Brasil.

E é um problema para todos nós. Isso dá um suporte que, junto com as confissões evangélicas, é o grande esteio do bolsonarismo. Um grande desafio seria ter, nas próximas eleições, por exemplo, uma direita que estes setores certamente apoiariam, mas que não fosse uma extrema-direita.

BBC News Brasil – Seria voltar aos velhos tempos? Quando havia um PSDB forte.

Singer - O PSDB, na minha opinião, é um partido de centro. Digo isso com uma certa dose de cautela, porque é muito difícil classificar os partidos no Brasil. Porque, de maneira geral, os partidos no Brasil são muito voláteis nas suas posições programáticas, oscilam muito.

E é muito difícil fixar quem está no centro, quem está na centro-direita, quem está na direita. Mas, feitas essas ressalvas, eu tendo a considerar hoje que o melhor lugar para a gente entender o PSDB é o centro.

Então, naquele período, 1994, 2014, a direita estava apoiando o centro. Agora, estou sendo menos otimista. Estou dizendo uma direita, mas uma direita democrática, porque o problema nosso no Brasil e no resto do mundo, em certa medida também, é isolar a extrema-direita.

E eu digo isso porque, do contrário, vamos continuar tendo a democracia ameaçada, e isso quase nos engessa, porque você precisa dar prioridade à democracia.

Ao mesmo tempo, a democracia não vai sobreviver se ela não for capaz de atender à maioria da população. Porque aí a maioria da população não a reconhecerá como um regime político que interessa.

BBC News Brasil - E o que está em jogo no Lula 4? O cenário é o de um Congresso hostil, com medidas que o presidente Lula tomou de última hora antes da eleição, em meio ao debate sobre um ajuste fiscal.

O que esse governo precisa fazer para responder a esses anseios da população.

Singer - Na minha opinião, o desafio do quarto mandato é equacionar os problemas socioeconômicos de modo a produzir um alívio imediato em amplos setores populares e, ao mesmo tempo, abrir horizontes de progresso futuro.

Em outras palavras, aumentar gradativamente o conquistado e reencontrar o caminho do desenvolvimento perdido. Para isso, será preciso enfrentar as pressões que começaram na manhã seguinte ao segundo turno, com a queda da bolsa e a subida do dólar.

O ajuste fiscal exigido por agentes do mercado financeiro significaria desindexar os benefícios previdenciários do salário mínimo e retirar os pisos da educação e da saúde da Constituição.

O presidente prometeu preservar os direitos sociais existentes e tenho certeza de que o fará. A proposta lançada pelo economista André Lara Resende para reduzir a taxa de juros, por outro lado, tem o mérito de deslocar o debate, mostrando que a maior parte da dívida pública se deve à altura em que a Selic é mantida pelo Banco Central.

Como careço de conhecimento técnico a respeito, evito afirmar que a fórmula de Resende deva ser adotada. O fato de ter reaparecido neste momento, entretanto, tem tudo a ver com o sentido do segundo turno, quando uma intensa movimentação juvenil e popular, pendente para a esquerda, virou o resultado.

Os jovens foram às ruas, sensibilizados pelo fim da escala 6X1, transporte gratuito no fim de semana e, indiretamente, pela proibição das bets, entre outras medidas tomadas a partir de meados de setembro.

Diante dessa novidade política, faz sentido sugerir propostas inovadoras para a gestão da economia, de modo a romper os nós que amarraram o terceiro mandato do presidente Lula.

Por fim, o aumento do peso representado pela extrema-direita no Senado e na Câmara é indiscutível. Tivemos um primeiro turno à direita e um segundo, à esquerda, o que é pouco comum.

Por maiores que sejam as bancadas do PL, contudo, não constituem maioria. Precisarão negociar o tempo todo e, penso, o seu foco será reabilitar Jair Bolsonaro de modo a que possa concorrer em 2030.

BBC News Brasil – O senhor, sendo uma pessoa que estuda as relações de trabalho, de que forma está enxergando a redução da jornada 6x1? Estamos entrando numa nova era do trabalho no Brasil.

Singer - Eu acho que estamos entrando, sem dúvida, numa nova era do trabalho no mundo todo, em função do encolhimento da indústria, que é um fenômeno duplo. Em parte, ela se deslocou para a Ásia, mas em parte também a indústria absorve menos gente, em função da tecnologia.

O que significa que tem uma área de serviços se ampliando muito, porque o agro também absorve pouca gente, então há uma expansão do setor de serviços. Por outro lado, tem a plataformização desse setor de serviços, o que implica mudanças profundas no sentido de fragmentação da classe trabalhadora.

A classe trabalhadora já não se encontra mais em fábricas em que havia milhares de pessoas trabalhando juntas e, por dividirem o trabalho, ele se torna cooperativo.

Ele pode não parecer, porque é voltado para a acumulação do capital, mas é cooperativo. E é isso que fez o movimento operário ser muito forte, porque, se os trabalhadores decidem parar, para tudo.

Hoje não tem mais isso. Ainda existe esse setor, mas ele se reduziu, ao mesmo tempo em que cresceu muito um setor fragmentado, que trabalha individualmente, separadamente, você não encontra seu colega.

E a plataformização significa que você tem um mecanismo algorítmico que te força a competir com o seu colega, em lugar de cooperar com o seu colega. Isso muda tudo.

Essa mudança faz com que os mecanismos tradicionais construídos pelo movimento operário não funcionem mais.

Essa é a explicação, na verdade, porque estamos diante de uma situação em que as alternativas da classe trabalhadora ficaram muito enfraquecidas. E agora, com a chegada da redução, acho que vai ficando claro para um número maior de pessoas que, na realidade, não seria tão importante ter mais dinheiro quanto ter mais tempo.

Essa questão do tempo sobre o dinheiro, comparativamente, ganhou uma proeminência que não tinha antes. Só que, num país semiperiférico como o Brasil, isto não se aplica.

Tanto é assim que uma parte das pessoas vai usar a folga que ganhou com a mudança da jornada de trabalho para fazer trabalho extra. Porque justamente a sua renda não dá conta das contas que tem a pagar.

De modo que a gente precisa fazer uma espécie de adaptação desse mundo que a gente vê nos países ricos para as condições nossas que são bastante diferentes.

BBC News Brasil - Do primeiro para o segundo turno, Lula reclamou da organização da campanha e da comunicação, que sempre é o primeiro setor a ser culpado. E aí, depois que ele ganhou, ele falou que agora vai ser diferente, vai falar com as pessoas todos os dias, começou a fazer vídeos de selfie, mudou o jeito como ele tentava se aproximar dos eleitores.

Daria para dar um conselho para o presidente em relação à comunicação nesse momento.

Como eu quero continuar trabalhando, eu vou tentar entender, mas eu definitivamente não sou a pessoa indicada para dar conselhos ao presidente nesta área. Mas, do ponto de vista prático, o exemplo é o segundo turno.

Ele se adaptou àquilo que era necessário, parece que foi bem, se comunicando e fazendo seu papel dentro desse novo formato comunicativo.

Mas repare que eu disse na minha resposta que eu acho que a comunicação é auxiliar. Continuo achando, como analista político, que os grandes movimentos são os movimentos da política.

O que a comunicação pode fazer é potencializar, capilarizar e assim por diante.

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