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Como votam evangélicos e católicos nesta eleição?

A preferência por Lula e Flávio Bolsonaro segue um padrão visto em 2022, mas com diferenças importantes. Pesquisadores explicam o que mudou e quais fatores pode

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A poucos dias das eleições, uma questão religiosa tem sido o centro da disputa entre as campanhas à Presidência de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).

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  36. BBC News, Vá para o conteúdo Seções Quem está à frente nas pesquisas para presidente?Veja as estimativas de intenção de voto no Agregador de Pesquisas da BBC News Clique aquiComo votam evangélicos e católicos nesta eleição?Crédito, Getty ImagesLegenda da foto, Fila para votar em eleição anterior; hoje, grande maioria das intenções de voto de católicos e evangélicos se concentra em Lula ou Flávio BolsonaroArticle Information.

O embate ganhou força quando se espalhou que Flávio, evangélico, supostamente pretendia retirar o título de "padroeira do Brasil" de Nossa Senhora Aparecida. A santa é um dos principais símbolos do catolicismo no país.

Com desdobramentos nos tribunais e assunto de discussões acaloradas nas redes sociais, a controvérsia pública atingiu grandes proporções ao envolver, no fim da corrida eleitoral, os dois maiores grupos religiosos do Brasil.

Católicos e evangélicos representam 79% dos brasileiros com 16 anos ou mais, segundo dados coletados pela Quaest no início de 2026 para uma pesquisa do Instituto de Estudos da Religião (ISER) — 50% se declaram católicos e 29%, evangélicos.

Hoje, a grande maioria das intenções de voto de católicos e evangélicos se concentra em Lula ou Flávio Bolsonaro. Na pesquisa Quaest divulgada na segunda-feira (28/9), os dois somam 77% das intenções entre católicos e 73% entre evangélicos no primeiro turno.

O presidente aparece à frente na preferência dos católicos, com 48%. O candidato do PL tem 29%. Mas Flávio lidera no segmento evangélico, com 46%, contra 27% de Lula.

O restante das respostas se divide entre candidatos com percentuais baixos em cada segmento: Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão) aparecem com 3% em cada um dos dois grupos, enquanto Romeu Zema (Novo) tem 1% em ambos.

Brancos, nulos e eleitores que dizem que não irão votar representam 8% entre os católicos e 10% entre os evangélicos. Os indecisos são, respectivamente, 5% e 6%.

Segundo a pesquisa, Lula cresce entre católicos e evangélicos. O levantamento, feito nos dias seguintes ao imbróglio em torno de Nossa Senhora, mostrou que, no primeiro turno, o presidente subiu cinco pontos percentuais (de 43% para 48%) das intenções de voto entre católicos em uma semana.

Já entre os evangélicos, o crescimento foi de quatro pontos (de 23% para 27%). A margem de erro é de três pontos para católicos e de quatro para evangélicos.

Veja Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil.

Fim do Promoção Agregador de pesquisas.

Com os resultados, o presidente abriu 19 pontos de vantagem sobre Flávio entre os católicos. Ao considerar somente os evangélicos, o candidato do PL lidera com os mesmos 19 pontos de diferença, mas em movimento descendente.

Na pesquisa anterior, as vantagens eram de 16 pontos para Lula nos católicos e de 26 pontos para Flávio nos evangélicos.

A mesma tendência é vista nas projeções de um eventual segundo turno. Embora Flávio amplie sua vantagem na ala evangélica e diminua a diferença entre os católicos, o presidente mostrou, na atual pesquisa, uma evolução maior do que a do adversário.

No eleitorado católico, Lula tem 50% e Flávio, 37% — na rodada anterior, eram 46% e 37%. Já no segmento evangélico, Flávio surge com 54% contra 30% de Lula. Uma semana antes, o placar era de 58% a 28%.

Lívia Martins, professora de Ciências Sociais na Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio) e coordenadora do ISER, diz que o fato político em torno do título da Nossa Senhora Aparecida pode ter impacto eleitoral, mas pondera que não é possível simplificá-lo nem estimar seu tamanho olhando apenas para dados referentes à religião dos eleitores.

Seria necessário haver um cruzamento com outros indicadores, como os de classe, raça ou região, para observar todas as variáveis em jogo e explicar uma oscilação eleitoral entre religiosos.

Isso porque um católico branco do Norte é muito diferente de um católico negro do Nordeste, por exemplo. Não daria para tratar ambos como se fossem o mesmo grupo.

Seus valores se provam, estatisticamente, diz Martins, muito diferentes uns dos outros.

Como as pesquisas não divulgam todos os dados demográficos de seus levantamentos, o cruzamento torna-se impossível, e há, no momento, diversos pontos cegos para essa análise.

A professora dá como exemplo as diferenças dos votos entre evangélicos negros e brancos nas eleições passadas.

A gente sabe que, em 2022, evangélicos negros votaram mais no Lula, enquanto os evangélicos brancos votaram mais no Bolsonaro", afirma Martins.

Algo parecido se dá entre os católicos. Segundo pesquisa do ISER, o favoritismo do presidente na ala católica é sustentado por negros e pardos. Entre os católicos brancos, há empate.

Não dá para saber se as oscilações nas pesquisas de agora vieram dos religiosos mais pobres ou dos mais ricos, nem se vieram dos brancos ou negros", diz Martins.

Temos um limite para podermos conectar.

A pesquisadora afirma que também é preciso considerar o impacto do pacote de benefícios sociais recém-anunciado pelo governo. Há duas semanas, Lula divulgou reajustes no Bolsa Família, medida aprovada por 59% dos eleitores, de acordo com a Quaest, e a terceira fase do Desenrola com compra de dívidas pela União.

Ficou mais claro à população que as propostas entre os dois candidatos são distintas em relação à transferência de renda", afirma Martins. "Os religiosos também percebem isso.

Outro anúncio que pode ter influenciado o crescimento dos votos dos dois grupos religiosos em Lula é a proibição das bets, em vigor desde 25 de setembro. Dados da pesquisa "Religião e Vida Pública no Brasil", do ISER, mostram que 90% da população concorda que apostas online viciam e destroem as famílias.

A concordância é de 93% entre evangélicos e de 88% entre católicos.

Rodrigo Toniol, professor de Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diz que, embora seja precipitado associar a melhora de Lula à controvérsia sobre o título da santa, é possível afirmar que o episódio serviu para esquentar as eleições tidas como "mornas" e mobilizar os eleitores comuns e os militantes.

A polêmica passa a ser o grande aglutinador do debate e condensa as estruturas que já estavam pré-determinadas", diz Toniol.

Assim, a desconfiança de muitos dos católicos com relação a um projeto de dominação evangélico ganha muita força. Não importa se a polêmica é verdade. O que importa é que produz um alinhamento de uma cadeia de associação de ideias.

Toniol reforça que a explicação religiosa é sedutora, mas não justifica, sozinha, os movimentos das pesquisas eleitorais.

É claro que há uma depuração estatística para dizer em que medida a religião é um componente determinante, mas, ainda assim, me parece que, quando começamos a produzir outros recortes, aparecem movimentos muito mais interessantes", diz.

Se olharmos, por exemplo, a série das três últimas pesquisas e pensarmos na classe C no segundo turno, a vantagem do Flávio caiu de 12 pontos para 3 nas últimas três rodadas.

Acho que a classe C é a classe que vai determinar essa eleição.

Em 2022, na última pesquisa Quaest antes do primeiro turno, a divisão religiosa era parecida com a atual.

Entre os católicos, Lula tinha 47% das intenções de voto, um ponto percentual a menos do que em 2026, e Jair Bolsonaro marcava 26%, três pontos a menos em relação a Flávio.

A vantagem de Lula no maior grupo religioso do país, portanto, teve uma ligeira queda de dois pontos.

No segmento evangélico, a diferença diminuiu mais, o que beneficiaria o presidente. Jair Bolsonaro tinha 48% do eleitorado e uma vantagem de 24 pontos sobre Lula, que marcava 24%.

Agora, Flávio registra 46%, dois pontos abaixo do resultado do pai, enquanto Lula aparece três pontos acima, com 27%. A distância, assim, cairia de 24 para 19 pontos.

Os números mostram que Flávio, convertido em 2024, herda de Jair Bolsonaro a maioria das intenções de voto dos evangélicos. Sua movimentação também é similar à do pai.

O ex-presidente, que se declarava católico, estreitou relações com lideranças evangélicas e foi batizado no rio Jordão dois anos antes do pleito, em 2016. A partir do rito, com o apoio de Michelle Bolsonaro (PL), já evangélica, passou a se apresentar como cristão, em um aceno aos dois grupos religiosos.

Os desempenhos nas pesquisas de agora, porém, não garantem uma tradução direta nas urnas. Ao considerar as margens de erro em uma eleição tão apertada, a análise se torna complexa.

Segundo Toniol, a escolha presidencial será decidida com poucos votos, "numa percentagem mínima". "Importa a gente pensar, então, que, do ponto de vista eleitoral, não precisa de 10% de diferença no segmento, precisa de 1%, 2%, 3% para produzir a diferença e se sagrar vencedor", diz.

Para Toniol, a campanha de Lula parece ter compreendido que o presidente chegou ao teto entre os evangélicos. Ainda que tenha acenado ao setor durante os quatro anos de mandato, com comícios, postagens elogiosas e movimentos simbólicos de aprovação do Dia do Pastor, o presidente não obteve um crescimento expressivo.

A conquista desse voto evangélico, nesse momento, me parece que tem um custo muito maior do que a conquista de outros segmentos da população em que Lula já vai bem e que consegue ainda ganhar votos a mais", diz.

Segundo Victor Araújo, professor de Política Comparada na Universidade de Reading, no Reino Unido, uma das dificuldades para uma maior penetração de Lula entre os evangélicos está na rejeição de seu nome na vertente pentecostal, a mais numerosa no país.

Cerca de sete em cada dez evangélicos brasileiros são pentecostais, segundo levantamento do ISER — o equivalente a 21% da população brasileira.

A pesquisa de Araújo mostra que os pentecostais tendem a recompensar menos eleitoralmente o PT mesmo quando são beneficiados por políticas sociais.

Há uma porção relevante de antipetismo das classes mais populares de evangélicos, dado que os pentecostais, na média, têm menos renda do que seus pares", diz.

A rejeição, diz Araújo, tem raiz moral. O pesquisador afirma que há um entendimento entre boa parte dos pentecostais de que a esquerda, personificada pelo PT, cria políticas públicas que vão contra valores fundamentais de sua fé.

Um candidato que não é abertamente contrário ao aborto ou que se aproxima de religiões de matriz africana entra automaticamente em conflito com esse grupo", diz.

Em relação ao eleitorado católico, Lula tende a ser mais rejeitado entre aqueles que se declaram praticantes, que respondem por 31% da população nacional.

Católicos praticantes se aproximam muito de evangélicos em questão de alinhamentos de valores", diz Lívia Martins.

Mesmo com a rejeição alta no grupo mais numeroso de evangélicos e entre católicos praticantes, porém, Lula tem desempenho melhor do que o candidato petista de duas eleições atrás, Fernando Haddad.

Em 2018, quando a Quaest não fazia uma série nacional comparável, o Datafolha mostrava que Haddad tinha somente 15% de intenções de voto entre os evangélicos. Entre os católicos, também não conseguia a vantagem que Lula mostra nas pesquisas: tinha 25% dos votos contra 29% de Bolsonaro.

Para Toniol, a explicação é a popularidade do presidente. "Lula é maior do que o PT, é muito maior do que os seus candidatos, muito maior do que o próprio campo identificado com a esquerda", afirma.

O pesquisador Matheus Ferreira, do Centro de Estudos do Comportamento Político (Cecomp) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), entende que o maior apoio dos católicos a Lula pode ser explicado por uma tendência eleitoral que se repete a cada pleito: os católicos votam de forma parecida com a média de quem não é evangélico.

Segundo ele, os católicos parecem "mais petistas" porque os evangélicos se deslocaram muito para a direita.

Ferreira ressalta que ser católico no Brasil não é uma identidade política como é para o evangélico.

Ninguém faz campanha 'para os católicos', e o próprio Lula evita usar a religião como bandeira, justamente para não afastar os evangélicos", diz.

Um dos fatores que pode ser determinante nessa eleição, de acordo com Araújo, é o crescimento dos "desigrejados", nome dado aos evangélicos que não se identificam com nenhuma igreja.

São pessoas que oram em casa, leem a Bíblia, mas não participam de cultos.

Em seu estudo "Believing without bonding: desigrejados and the political consequences of institutional disengagement in Brazil" (Crer sem pertencer: os "desigrejados" e as consequências políticas do desvínculo institucional no Brasil, em tradução livre), publicado em agosto em parceria com a pesquisadora Valeria Rainero, o professor Victor Araújo mostra que esse grupo já tem um contingente relevante — 18% dos evangélicos — e tende a ser menos conservador e menos bolsonarista.

Feito entre 10 e 27 de novembro de 2025, com 1. 514 brasileiros de 18 anos ou mais, o levantamento mostra que a vertente é mais flexível quanto a pautas morais, como aborto, homossexualidade, divórcio, eutanásia e prostituição.

As opiniões e os índices de aprovação dos temas se provaram similares aos vistos entre católicos.

Araújo acredita que o grupo pode reduzir o prejuízo do PT entre os evangélicos. Ainda que não tenha havido mensuração da vertente nas eleições de 2018 e 2022, a pesquisa mostra que a porcentagem de pessoas do grupo que não votarão de novo em um candidato bolsonarista está acima da dos congregacionistas: 39% contra 58%.

É possível que o PT possa ganhar 1% ou 2% a mais, o que pode fazer uma grande diferença", diz.

Em pesquisa feita com 15 mil pessoas entre janeiro e fevereiro de 2026, o ISER computou que há uma grande rejeição dos religiosos à mistura de fé e política nos centros religiosos.

Segundo a pesquisa, 82% de todas as religiões rejeitam que se discuta política nas igrejas, 83% rejeitam que se indique em quem votar e 90% rejeitam campanhas de candidatos.

Lívia Martins, coordenadora da pesquisa, afirma que o resultado vai contra a ideia de que os evangélicos são manipulados e não escolhem seus candidatos por conta própria.

As pessoas rejeitam recomendações dentro dos templos e, quando há alguma recomendação, não resulta em voto", diz a pesquisadora. "Elas analisam por conta própria, de acordo com seus valores.

Ainda que rejeitem as indicações, o levantamento mostrou que os evangélicos são os que mais recebem orientações de votação nos centros religiosos: 22% deles afirmaram que o líder religioso recomendou que votassem em Jair Bolsonaro no segundo turno de 2022, o dobro da média nacional.

O dado traduz o que Araújo vê como uma vontade maior dos líderes evangélicos de se infiltrar na política.

A visão de parte desses evangélicos é que devem expressar sua fé de modo que ela transborde para outras esferas e, assim, o Brasil atinja a maioridade evangélica", diz.

É isso que André Mendonça, Damares e a bancada evangélica personificam. E isso vale também para professores, policiais, jardineiros, todos os setores.

Para Martins, a disputa entre católicos e evangélicos deve perdurar para além das eleições de 2026.

Estamos falando de disputas de relações de poder. Sobretudo se pensarmos que o catolicismo está perdendo terreno para os evangélicos e precisa se manter na dianteira", diz a pesquisadora.

Um dos centros da disputa, afirma Martins, será a disputa pelo calendário e elementos simbólicos, como sugere a polêmica em torno de Nossa Senhora.

A reivindicação de símbolos católicos como parte do calendário oficial brasileiro sempre foi fundamental para a igreja construir e se legitimar do ponto de vista cultural", diz a professora.

Os evangélicos vêm também investindo na disputa pela imaginação da nação, justamente pelo calendário. E a disputa sobre os calendários é uma realidade. Eles querem feriado nacional para chamarem de seu.

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