Uma universidade não se constrói apenas com aquilo que produz hoje. Ela também se define pela capacidade de preservar, organizar e transmitir o conhecimento acumulado ao longo de sua história.
Em suas bibliotecas, coleções e acervos documentais estão registradas trajetórias científicas, intelectuais e culturais que ultrapassam gerações e constituem parte essencial da memória da própria Universidade.
Preservar esse patrimônio não significa simplesmente conservar livros e documentos. Significa assegurar as condições para que o conhecimento continue disponível, acessível e capaz de produzir novos conhecimentos.
É nessa perspectiva que a Agência de Bibliotecas e Coleções Digitais (ABCD) da USP institui o Programa de Apoio à Conservação, Preservação e Salvaguarda dos Acervos das Bibliotecas da Universidade de São Paulo, por meio do Edital ABCD I USP nº 002/2026.
O programa estabelece um mecanismo institucional de apoio financeiro destinado a ações de conservação preventiva e curativa, preservação, gestão de riscos e salvaguarda dos acervos bibliográficos, documentais e especiais mantidos pelas bibliotecas da USP.
Seu objetivo é prevenir e retardar processos de deterioração, reduzir riscos, melhorar as condições de guarda e ampliar a vida útil dos acervos, preservando sua integridade, autenticidade, disponibilidade e acesso continuado.
A iniciativa reconhece esses acervos como patrimônio científico, cultural e institucional da Universidade e como infraestrutura estratégica às atividades de ensino, pesquisa, inovação, cultura e extensão.
Essa concepção é particularmente importante porque amplia a compreensão da preservação. Não se trata apenas de intervir quando um documento já se encontra deteriorado.
Uma política contemporânea de preservação deve incorporar diagnóstico, prevenção, monitoramento ambiental, acondicionamento, gestão de riscos, planejamento, formação profissional e capacidade de resposta diante de situações capazes de comprometer os acervos.
O programa nasce, portanto, com uma perspectiva sistêmica. A dimensão desse desafio pode ser compreendida pelos próprios números da Universidade. Segundo o Anuário Estatístico da USP, na Tabela 5.
01 “Acervo das Bibliotecas da USP, distribuído por Unidade, em 2025”, o total do acervo físico registrado nas bibliotecas alcança 8. 489. 125. Esse universo reúne 2.
502. 969 livros, 276. 855 teses, 74. 966 títulos de periódicos, 5. 069. 492 fascículos de periódicos, 61. 973 multimeios e 577. 836 materiais classificados em outras categorias.
Mais do que expressar a dimensão quantitativa das coleções, esses números revelam a escala da responsabilidade institucional envolvida em assegurar sua conservação, integridade, disponibilidade e acesso ao longo do tempo.
É importante compreender o significado desse valor, que não constitui uma estimativa do custo de conservação de uma biblioteca, tampouco representa um valor padronizado em função do número de volumes de seu acervo.
Trata-se de um parâmetro inicial de alocação financeira adotado para assegurar, na primeira edição do programa, amplitude institucional, isonomia de acesso aos recursos e possibilidade de participação de todas as bibliotecas que integram o sistema.
As necessidades de preservação são necessariamente heterogêneas. Uma coleção histórica, um conjunto documental especializado, um acervo submetido a determinadas condições ambientais ou uma biblioteca com demandas específicas de acondicionamento apresentam riscos e prioridades distintas.
Por isso, distribuir recursos exclusivamente a partir do tamanho quantitativo dos acervos produziria uma simplificação incompatível com a complexidade do problema.
O modelo escolhido parte de outro princípio: diagnosticar para decidir e produzir evidências para planejar e investir. Cada proposta deverá caracterizar o acervo a ser beneficiado, apresentar diagnóstico da situação, justificar a relevância da intervenção, definir objetivos, explicitar os procedimentos técnico-metodológicos, estabelecer resultados e indicadores, apresentar cronograma e detalhar o orçamento.
Essa estrutura procura associar financiamento a planejamento e resultados mensuráveis. A preservação deixa, assim, de ser entendida apenas como resposta a uma necessidade imediata e passa a integrar um processo institucional de produção de conhecimento sobre os próprios acervos.
Além das intervenções realizadas, o programa permitirá reunir informações sobre as condições de conservação das bibliotecas, identificar padrões de risco, conhecer prioridades, mapear capacidades instaladas e dimensionar necessidades futuras.
O edital prevê explicitamente que os resultados poderão subsidiar a disseminação de boas práticas, o planejamento de novas ações e a formulação de políticas institucionais de conservação e preservação.
Também permitirá construir um diagnóstico sobre planos, políticas, estruturas de governança e principais necessidades existentes nas diferentes bibliotecas. Estamos, portanto, diante de um primeiro ciclo estruturante.
Seu valor não deve ser medido apenas pelo volume de recursos investidos ou pelo número de intervenções realizadas. Será igualmente importante a capacidade de transformar cada projeto em informação para a tomada de decisão e cada experiência local em aprendizado institucional.
Os projetos terão prazo de 12 meses a partir da disponibilização dos recursos, período que permitirá planejamento, procedimentos de contratação, execução das ações e acompanhamento dos resultados.
Ao final, as bibliotecas contempladas deverão apresentar relatório técnico e prestação de contas, incluindo indicadores, quantitativos do acervo beneficiado, comparação entre metas e resultados e documentação comprobatória.
Essa dimensão é fundamental porque políticas sustentáveis dependem de evidências. Ao conhecermos melhor as condições dos acervos e os resultados das intervenções, poderemos dimensionar com maior precisão os investimentos necessários para os próximos ciclos, estabelecer prioridades e aperfeiçoar continuamente os instrumentos institucionais de preservação ao longo da gestão 2026-2030.
Existe ainda uma dimensão mais ampla. As bibliotecas universitárias ocupam uma posição singular no ecossistema do conhecimento. Elas conectam passado, presente e futuro.
Preservam aquilo que outras gerações produziram, dão suporte ao conhecimento que está sendo produzido hoje e criam condições para aquilo que ainda será pesquisado, interpretado e descoberto.
Nesse sentido, conservação e inovação não representam agendas opostas. Quanto mais acelerada se torna a produção de informação e quanto mais intensamente a transformação digital modifica as práticas científicas, maior é a responsabilidade das universidades em assegurar permanência, autenticidade, contexto e acesso ao patrimônio intelectual que receberam e produziram.
Uma universidade orientada para o futuro precisa, necessariamente, cuidar de sua memória. A implantação do programa somente se tornou possível pelo compromisso institucional da Universidade com suas bibliotecas e seus acervos.
Nesse contexto, é importante registrar o apoio do reitor da USP, professor Aluisio Augusto Cotrim Segurado, e da vice-reitora, professora Liedi Bernucci, à construção desta iniciativa e ao fortalecimento das bibliotecas como parte da infraestrutura acadêmica da Universidade.
Mas o êxito dessa política dependerá, sobretudo, da participação das próprias bibliotecas. São suas equipes que conhecem profundamente os acervos, acompanham cotidianamente suas condições, identificam riscos e compreendem sua relevância para diferentes comunidades de ensino e pesquisa.
Converter esse conhecimento profissional em diagnósticos estruturados, projetos tecnicamente fundamentados e indicadores será decisivo para que possamos construir uma visão sistêmica da preservação na USP.
A iniciativa representa, assim, mais do que a abertura de uma linha de financiamento. Representa o início de um processo que procura integrar investimento, diagnóstico, intervenção, gestão de riscos, avaliação e planejamento institucional.
A preservação é, por definição, uma responsabilidade entre gerações. Aquilo que fazemos hoje determinará o que pesquisadores, estudantes e a sociedade poderão consultar, estudar e reinterpretar amanhã.
(*) Francisco Carlos Paletta é presidente da Agência de Bibliotecas e Coleções Digitais da USP.
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