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Urna eletrônica faz 30 anos: da estreia em 57 cidades à eleição de 158,7 milhões de eleitores

Em 3 de outubro de 1996, um terço do país votou pela primeira vez numa máquina. Veja a história, os números, a tecnologia, as auditorias e as controvérsias da urna que vai receber os votos deste domingo.

11 min de leitura
Urna eletrônica faz 30 anos: da estreia em 57 cidades à eleição de 158,7 milhões de eleitores

Em 3 de outubro de 1996, mais de 32 milhões de brasileiros apertaram pela primeira vez a tecla verde CONFIRMA. Eram eleitores de 57 cidades, entre capitais e municípios com mais de 200 mil eleitores, que estrearam um equipamento ainda chamado de "Coletor Eletrônico de Voto". A urna eletrônica completa 30 anos neste sábado (3), véspera do 1º turno. No domingo, vai receber os votos de 158,7 milhões de eleitores, numa eleição que o TSE descreve como a maior eleição informatizada do mundo.

A data coincide com a reta final de uma campanha marcada por desinformação e pelo debate sobre interferência estrangeira. Por isso, esta reportagem reúne o que os registros oficiais e a imprensa documentaram sobre a urna: de onde ela veio, como funciona, como é fiscalizada e quais críticas recebeu.

Três décadas em números

57
cidades na estreia, em 1996
~70 mil
urnas em 1996
563.910
urnas preparadas para 2026
158,7 mi
eleitores aptos em 2026
14
modelos de urna usados até 2024
2000
primeira eleição 100% eletrônica

Antes da urna: dias de apuração e fraudes no papel

Até meados dos anos 1990, votar significava preencher uma cédula de papel e depositá-la numa urna de lona. A apuração era manual, levava dias e passava por muitas mãos. Foi nesse caminho, entre a seção eleitoral e a planilha de resultados, que surgiram as fraudes mais conhecidas da história eleitoral brasileira.

Como se fraudava no tempo do papel

Urna grávida: a urna de lona chegava à seção já recheada de cédulas preenchidas antes da votação.

Mapismo: na digitação do mapa de resultados, votos eram transferidos entre candidatos do mesmo partido. Dois candidatos com 50 votos cada podiam virar 80 a 20, sem mudar o total.

Cédula em branco aproveitada: votos deixados em branco eram preenchidos na hora da contagem.

O ponto de virada foi a eleição de 1994. No Rio de Janeiro, as irregularidades na apuração foram tão graves que as eleições para deputado federal e estadual foram anuladas na cidade. Luiz Fux, hoje ministro do Supremo Tribunal Federal, era juiz eleitoral na Zona Oeste carioca e precisou convocar mil estudantes de Direito da Uerj para recontar os votos num local protegido por militares do Exército. Ele relatou ao TSE ter sido ameaçado de morte e ter passado seis meses sob escolta policial.

"As urnas tinham uma fenda por onde só passava uma cédula, mas, ao derramá-las sobre a mesa, havia bolos de votos com elástico enrolados em um jornal."

Luiz Fux, ministro do STF, que em 1994 era juiz da 25ª Zona Eleitoral do Rio de Janeiro, em relato ao TSE

O então presidente do TSE, Sepúlveda Pertence, concluiu que, "para acabar de vez com as fraudes nas eleições, é necessário informatizar o voto". O sucessor dele, Carlos Velloso, transformou a ideia em projeto em 1995, com uma comissão de juristas e técnicos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Centro Técnico Aeroespacial (CTA), das Forças Armadas e dos ministérios da Ciência e Tecnologia e das Comunicações.

A estreia de 1996, com tropeços

As primeiras urnas foram enviadas aos tribunais regionais em 13 de maio de 1996. Antes, em 18 de agosto, um simulado em Caxias do Sul (RS) com 5.310 pessoas aprovou a "máquina de votar". Fabricado pela Unisys, o modelo tinha processador 386 e gravava os votos em disquetes. A Folha de S.Paulo da época comparou o aparelho a uma balança eletrônica de supermercado.

O dia da estreia não foi perfeito, e é justo registrar isso. Segundo reportagem da Folha publicada em 4 de outubro de 1996, o número de urnas que não funcionaram foi maior que o esperado, segundo o próprio TSE. O transporte dos disquetes atrasou em São Paulo e no Rio por causa da chuva. Em Boa Vista (RR), uma falha de informação do tribunal regional fez disquetes serem rejeitados. Mesmo assim, a contagem foi muito mais rápida que a manual. Quatro anos depois, em 2000, todo o eleitorado do país já votava eletronicamente.

Linha do tempo

1932
Criação da Justiça Eleitoral. O primeiro Código Eleitoral já previa o uso de máquinas de votar.
1986
Recadastramento eletrônico de cerca de 70 milhões de eleitores, primeiro grande passo da informatização.
1989–1995
Experiências pioneiras em Santa Catarina: plebiscito de Cocal do Sul (1991), cinco seções de Florianópolis (1994) e a eleição para prefeito de Xaxim (1995), toda com microcomputadores.
1994
Fraudes na apuração em papel levam à anulação das eleições para deputado federal e estadual no Rio de Janeiro.
1995
Lei 9.100 autoriza o voto eletrônico. Comissão com técnicos do Inpe, do CTA e das Forças Armadas define o projeto.
18/8/1996
Teste decisivo em Caxias do Sul (RS): 5.310 pessoas usam a "máquina de votar" num simulado.
3/10/1996
Estreia oficial: 57 cidades, mais de 32 milhões de eleitores (um terço do total) e cerca de 70 mil urnas.
1998
Dois terços do eleitorado já votam na urna. A impressora acoplada ao modelo de 1996 é abandonada.
2000
Primeira eleição totalmente informatizada: todos os eleitores do país votam na urna eletrônica.
2002
Começa o Teste de Integridade, a auditoria feita no próprio dia da eleição.
2008
A urna passa a usar Linux, e começa a implantação gradual da biometria.
2021
Fabricação da UE2020, com processamento 18 vezes maior que o da UE2015. A Câmara rejeita a PEC do voto impresso.
2022
Eleição presidencial com resultado matemático às 19h56, menos de três horas após o fim da votação.
2026
30 anos da urna. 563.910 equipamentos para 158,7 milhões de eleitores no 1º turno, em 4 de outubro.
2028
Previsão de estreia da UE2028, que vai substituir os modelos UE2013 e UE2015.

A tecnologia: de 2 MB de memória ao hardware criptográfico

Até 2024, a Justiça Eleitoral já tinha usado 14 modelos de urna. A distância entre o primeiro e o atual resume a evolução da informática em 30 anos. O teclado, porém, segue a lógica de 1996: números como os de um telefone, com marcação em braile, para que eleitores com pouca escolaridade ou com deficiência visual votem com a mesma facilidade.

Da UE96 à UE2020: o que mudou por dentro

UE96 (1996)

  • Processador Intel 386SX de 40 MHz
  • 2 MB de memória
  • Votos gravados em disquetes de 1,44 MB
  • Impressora acoplada, abandonada em 1998
  • Teclado de telefone com braile

UE2020/UE2022

  • Processador Intel Atom de 1,16 GHz
  • 4 GB de memória
  • Sistema próprio, o Uenux, sem suporte a rede
  • Hardware criptográfico certificado pela ICP-Brasil
  • Tela sensível ao toque no terminal do mesário
  • Bateria de lítio-ferro-fosfato

Desde 2008, a urna roda Linux, numa versão própria desenvolvida pelo TSE chamada Uenux. Ela é configurada para funcionar só com o hardware da urna: não há suporte a rede, teclado ou mouse externos, nem terminal de comandos. A urna não se conecta à internet. Os resultados de cada seção saem gravados numa mídia física e impressos no Boletim de Urna.

As urnas da eleição de domingo, por modelo

UE2020222.323 urnas (39,4%)
UE2022217.145 urnas (38,5%)
UE201595.065 urnas (16,9%)
UE201329.377 urnas (5,2%)

Total: 563.910 urnas, sendo 499.248 para votação e 64.662 de contingência. Fonte: TSE.

Não haverá modelo novo neste ano. O g1 checou e classificou como falsa a alegação de que 2026 estrearia uma urna diferente. O próximo modelo, a UE2028, deve entrar em uso nas eleições municipais de 2028, substituindo as UE2013 e UE2015. Segundo o TSE, essa é uma renovação periódica, "sem relação com qualquer risco específico".

Eleitores com biometria cadastrada

202275,51%
202689,01% (141,3 milhões)

A biometria começou a ser implantada em 2008. Fonte: TSE.

Mais rápida que qualquer contagem manual

A velocidade é o efeito mais visível da urna. Em 1994, ainda com cédulas mas já com a totalização por computador, o presidente eleito foi anunciado por volta das 22h ou 23h, segundo Pertence. No 2º turno de 2022, com a votação unificada pelo horário de Brasília, o TSE declarou o resultado matemático da eleição presidencial às 19h56, com 98,91% das urnas apuradas, menos de três horas após o fim da votação. A totalização de todas as 472.075 seções terminou às 0h18 do dia seguinte.

Como a urna é fiscalizada

A confiança no sistema depende de etapas de auditoria que acontecem antes, durante e depois da votação. Várias delas são públicas e podem ser acompanhadas por partidos e entidades.

Como a urna é auditada, do código ao resultado

  1. Código-fonte aberto a fiscais: para 2026, ficou disponível para inspeção de 2 de outubro de 2025 a 4 de setembro de 2026, por partidos, OAB, Ministério Público, Polícia Federal e outras entidades.
  2. Teste Público de Segurança: em dezembro de 2025, investigadores executaram 29 planos de ataque. Foram 3 achados, corrigidos e conferidos em maio de 2026. Segundo as comissões, nenhum comprometeu o sigilo ou a integridade do voto.
  3. Lacração: os programas são assinados digitalmente em cerimônia pública no TSE. A urna só roda software com essa assinatura.
  4. Zerésima: antes da votação, cada urna imprime um relatório provando que não há nenhum voto registrado.
  5. Boletim de Urna: ao fim da votação, cada seção imprime o resultado com QR Code. Uma via é afixada na porta, e qualquer pessoa pode comparar com o site do TSE.
  6. Teste de Integridade: no dia da eleição, urnas sorteadas recebem votos de cédulas de papel, em sessão filmada, e o resultado precisa bater voto a voto. Em 2026, o TCU acompanha o teste nas 27 unidades da Federação.

O Teste Público de Segurança de 2025 teve recorde de 149 inscritos. Entre os investigadores convidados para o Teste de Confirmação, em maio de 2026, estava um grupo da Faculdade de Computação da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Segundo o TSE, os testes confirmaram as correções sem identificar novas vulnerabilidades.

Críticas e controvérsias

Nos últimos anos, a urna também virou alvo de disputa política. A ULTRA NOTÍCIAS resume os principais episódios com base nos registros oficiais.

As controvérsias, com os fatos

Voto impresso: em 10 de agosto de 2021, a PEC 135/19 teve 229 votos a favor e 218 contra na Câmara. Precisava de 308 e foi arquivada. Defensores da proposta dizem que o comprovante em papel facilitaria a recontagem. O TSE argumenta que a urna já é auditável e lembra que a impressora do modelo de 1996 foi abandonada por travar com calor e umidade.

Relatório da Defesa (2022): as Forças Armadas fiscalizaram a eleição e não apontaram fraude. Conferiram 442 boletins de urna sem encontrar divergência com os dados do TSE. O relatório, porém, afirmou que não foi possível fiscalizar o sistema "completamente" e sugeriu análises adicionais do código.

Balanço oficial: segundo o TSE, em 30 anos não houve comprovação de fraude capaz de alterar resultados produzidos pelas urnas eletrônicas.

Neste ano, segundo reportagem do R7, o TSE tem monitorado o risco de interferência externa no processo eleitoral após um alerta da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Integrantes do tribunal ressaltam que o sistema de votação opera numa rede isolada da internet e que a maior preocupação é a desinformação, não a urna. Mensagens falsas sobre fraude, sobre o funcionamento das urnas ou sobre data, horário e local de votação podem ser denunciadas no Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral (Siade), do TSE.

Em Mato Grosso do Sul

7.106
urnas distribuídas pelo TRE-MS
2.024.884
eleitores aptos
1.023
locais de votação em 79 municípios
2.242
seções em Campo Grande

No domingo, a votação em MS vai das 7h às 16h (horário local), o que equivale a 8h às 17h em Brasília. As urnas ficam desligadas até as 6h, quando os mesários iniciam os procedimentos e emitem a zerésima. O eleitorado do estado cresceu 1,42% desde 2022, quando eram 1.996.510 eleitores.

30 anos depois

A urna de 1996 tinha 2 MB de memória e uma impressora que travava. A de 2026 tem hardware criptográfico, biometria para 89% do eleitorado e auditorias acompanhadas pelo TCU. Entre uma e outra, passaram sete eleições presidenciais e dezenas de pleitos municipais e gerais. O sistema não está imune a críticas, e o próprio TSE convida especialistas a tentar quebrá-lo a cada ciclo eleitoral. Mas, neste domingo, os 158,7 milhões de eleitores repetem um gesto que um terço do país fez pela primeira vez há 30 anos: digitar o número, conferir a foto e apertar CONFIRMA.

Por Amin Feres, redator da ULTRA NOTÍCIAS, com informações do Tribunal Superior Eleitoral, do TRE-RJ, do TRE-MS, da Câmara dos Deputados, do Ministério da Defesa, do TCU, da Folha de S.Paulo (inclusive do acervo de 1996), g1, CNN Brasil, UOL, O Globo e R7.

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