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Política

Quando a escolha é pelo menos mau

A antipatia é recíproca: metade do eleitorado rejeita Lula ou Bolsonaro

3 min de leitura
Política — imagem padrão

Vota porque gosta ou vota porque não gosta? Em eleições, o combustível político pode ser a simpatia por um candidato, ou outro sentimento talvez ainda mais poderoso: a repugnância.

E quando se olha para as taxas de rejeição no Brasil, é mesmo isso que parece estar a acontecer.

Quando o eleitor vai às urnas, tem duas formas de escolher: pela identificação com um político e as suas propostas, ou então mais pela aversão em relação à pessoa e às ideias do oponente.

Nos últimos anos, em algumas democracias, paralelamente ao aumento do populismo da direita radical e à polarização afetiva que ele trouxe, cresceram também as taxas de rejeição dos candidatos.

A narrativa de ameaça e diabolização do adversário, o estilo conflituoso e as ideias polémicas ajudam a explicar o fenómeno.

Nos Estados Unidos, Trump e Hillary protagonizaram, em 2016, a primeira eleição presidencial em que os candidatos dos dois grandes partidos chegaram às vésperas com mais avaliações desfavoráveis do que favoráveis.

O Brasil seguiu atrás. Quando se analisam as eleições presidenciais neste século, é evidente uma mudança. É que, em 2002, a rejeição de Lula era de menos de 30% e a de José Serra chegava a mais de metade dos eleitores.

Mas, nas duas últimas corridas, as antipatias passarem a ser recíprocas: há uma dupla rejeição simétrica, equivalente entre os polos da esquerda e da direita.

Em 2018, tanto Bolsonaro como Haddad tinham repulsa acima dos 40%. Também em 2022, Bolsonaro era recusado por 50% do eleitorado e Lula ficou lá próximo, nos 46%.

Agora, os inquéritos sobre Lula e Flávio também têm mostrado dois fortes blocos com uma rejeição de cerca de 50%, que funciona como um teto. Os argumentos atirados pelos dois lados para atacar o oponente são conhecidos: um é um idoso, não traz nada de novo e tem casos acumulados; o outro é um nepobaby a concorrer em nome de um pai condenado por atentar contra a democracia.

Em Portugal, a situação é um pouco diferente, mais próxima do que aconteceu em França em 2002, na corrida contra o pai Le Pen. O candidato da direita radical, André Ventura, tem avaliações negativas e uma enorme taxa de rejeição que é assimétrica, acabando por mobilizar contra ele, no segundo turno das últimas eleições presidenciais, um eleitorado muito diverso, que vai da esquerda ao centro-direita.

Mas sinal dos tempos que o ressentimento e a desilusão se traduzam em hostilidade e numa escolha sobretudo pela negativa. Os eleitores podem não gostar muito de um político, mas detestam ainda mais a alternativa.

E isso, na verdade, é bastante triste e até preocupante.

A democracia devia ser outra coisa – construtiva e positiva. A questão é: quanto tempo resiste ela nestas condições.

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