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Papangu abre portal para os anos 1970 no prog e ambicioso ‘Celestial’

Resenha do novo álbum do Papangu, 'Celestial', no qual a banda paraibana abre um portal para os anos 1970 através de sua música.

3 min de leitura
Papangu abre portal para os anos 1970 no prog e ambicioso ‘Celestial’

Banda paraibana mergulha nas influências progressivas e da música nordestina no seu trabalho mais implacável da carreira até agora.

No começo da década de 2020, ninguém apostaria que uma das maiores revelações do rock brasileiro por vir seria uma banda capaz de combinar metal extremo com ritmos brasileiros e os aspectos mais cult do progressivo.

Neste cenário, o Papangu se revelou um dos grupos mais interessantes a surgir no país ao longo dos últimos anos.

Os dois primeiros álbuns da banda paraibana – Holoceno (2021), Lampião Rei (2024) – representam uma evolução com relação ao anterior e um refino da fórmula sonora, calcada numa mistura de ritmos nordestinos, metal e rock progressivo — em especial uma vertente europeia chamada zeuhl, inventada pelo conjunto francês Magma, que engloba elementos de jazz fusion e neoclássico.

Entretanto, o que deveria ter sido uma celebração logo se tornou dor de cabeça.

Quando uma banda associada a metal extremo faz algo assim, o som geralmente pende para algo mais pesado. Já no caso de Celestial, o Papangu se apoiou mais nos elementos mais “cabeça” do seu estilo.

As influências de forró, ciranda, Hermeto Pascoal e o álbum Paêbirú (1975), obra cult brasileira de Lula Côrtes e Zé Ramalho, coexistem com gigantes do progressivo King Crimson – especialmente o caos controlado da fase do disco Lark’s Tongue in Aspic (1973) – e o já mencionado Magma.

Ainda assim, não quer dizer que o metal esteja ausente. Celestial é cheio de momentos nos quais marcas registradas da música pesada – bumbo duplo, blast beats e os vocais guturais de Hector Ruslan – fazem aparições pontuais.

Na canção “Taxidermia”, tudo isso coagula para gerar a composição mais pesada já feita pela banda, com uma letra crítica à desigualdade social no Brasil, usando os coronéis do Nordeste como exemplo de opressão.

A escrita é cheia de estrofes repetidas como mantras, mas cujos versos mais pertinentes aparecem logo no começo.

O rosto bronzeado Colosso decorado O sal a terra cobre Maré e vento forte Tombou por mau olhado Colosso engolido Capado e desmontado Semblante corroído”.

Há de se ressaltar, ainda, o processo por trás de Celestial. Se o som fica marcado pela determinação de não ceder criativamente em nada e as letras fazem alusões constantes ao ato físico de fazer arte, tais características se refletem na tecnologia usada nas gravações.

A banda trabalhou com Richard Behrens – que já havia produzido o disco anterior, Lampião Rei – em Berlim, mas dessa vez tudo foi gravado diretamente em fita. Sem computadores.

Tudo analógico; até mesmo a masterização. Em meio a discussões constantes sobre o papel da tecnologia na vida cotidiana e uso de inteligência artificial na música, isso é uma escolha deliberada e inerentemente política.

No final, tudo isso não teria muito efeito se Celestial falhasse em cumprir a promessa de seus conceitos e ambições. Felizmente, o álbum triunfa nesse aspecto. Papangu criou uma sinfonia caleidoscópica que remete ao passado, comenta sobre o presente e aponta para o futuro.

*Celestial, novo álbum do Papangu, está disponível nas plataformas digitais via gravadora Deck.

Fontes

Informação baseada em material público de Rolling Stone Brasil, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.

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