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Corumbá - MS | Terça-feira, 3 de novembro de 2026 | 17:27

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Lúcio Maia fala ao TMDQA! sobre novo disco: “a psicodelia é uma coisa natural”

Guitarrista expande sua pesquisa musical e explora o futurismo em seu segundo álbum solo

14 min de leitura
Lúcio Maia fala ao TMDQA! sobre novo disco: “a psicodelia é uma coisa natural”

Crédito: João Liberato Sem ficar preso à pressa do mercado ou ao apelo à nostalgia, Lúcio Maia parece encarar sua trajetória solo como um processo contínuo de inquietação criativa.

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Desde os primeiros passos com a Nação Zumbi, banda da qual fez parte durante 30 anos, o incrível guitarrista ajudou a construir uma linguagem em que rock, ritmos pernambucanos, funk, batidas eletrônicas e psicodelia estavam lado a lado, dando origem a uma sonoridade inovadora.

Essa mesma experimentação ganha uma nova forma em Lúcio Maia, segundo álbum solo do guitarrista, que transforma o futurismo em ponto de partida para mais uma viagem sonora.

Em conversa com o TMDQA!, o talentoso músico compartilhou detalhes sobre o processo de criação do novo material, comentou sobre o fato de ter usado uma única guitarra durante as gravações e refletiu sobre os contrastes entre passado e futuro.

TMDQA!: Lúcio, em que contexto esse disco surgiu? Em que momento você começou a pensar e criar essas músicas.

Lúcio: Eu acho que tem geralmente uma conjectura, várias coisas. Eu acho que o lance de você ficar muito tempo sem gravar nada dá um certo comichão já, pra quem costuma sempre estar produzindo, o não fazer nada é talvez um pavio para iniciar alguma coisa, né.

Mas eu nunca fico sem fazer nada. O lance é que eu não estava querendo mais fazer um projeto pra pegar estrada, sabe? Pra viajar. Eu estava envolvido com muitas outras coisas, com trilha sonora, teatro, tudo que eu podia fazer daqui de casa mesmo, sabe.

E aí… não sei como, cara. Eu acho que deve ter sido uma dessas comichões, assim, que dá de você voltar.

Porque no outro disco foi igual. Em 2019, na verdade, eu criei o disco em 2017, eu lancei em 2019. Eu fiz mais ou menos o mesmo processo, assim, que durou uns 15 dias, 15 a 20 dias de criação, e depois foi só produção.

Gravar e ficar pensando, enfim, no processo de pós. Mas o momento da criação sempre é o mais legal, né? Ele é sempre o mais breve.

TMDQA!: O disco flerta com ideias ligadas ao futurismo, movimento que exaltava velocidade, tecnologia e modernidade. Como foi criar a relação entre esse conceito e a sonoridade desse disco.

Lúcio: Aquele riff lá do “Fetish Motel”, foi talvez a primeira ideia do disco. E eu fui buscar na minha gaveta, assim, nos meus arquivos, achei de uma jam session de 1900 e alguma coisa.

Dali eu comecei a produzir a música e eu senti essa necessidade. Eu achei que aquela música ali falava de… Fui fazer uma pesquisa, aí achei esse termo “Dark Funk”.

E é aquela coisa do funk americano voltado para os acordes mais obscuros, sabe? Com um clima mais denso. Aí eu achei muito bacana ver o termo. E aí eu comecei a moldar o resto do disco partindo disso, sabe.

E o lance da psicodelia não é um flerte meu. A psicodelia é uma coisa natural minha. Eu não sei nem até onde existe esse conceito da psicodelia quando você toca, quando você faz alguma coisa, mas o meu approach, o meu instrumento, ele é muito baseado no que ninguém tá fazendo.

Eu procuro fazer as coisas que ninguém está fazendo. Pelo menos, não vejo ninguém fazendo aquele mesmo tipo de pesquisa que eu fiz pra fazer. Eu acho que a psicodelia já está embutida em tudo que eu fiz, em todos os discos que eu gravei na minha vida.

TMDQA!: E você estava ali no surgimento do Manguebeat, esse movimento que defendia a mistura entre referências aparentemente distantes, unindo Maracatu, Rock, Funk, Rap e ritmos africanos.

Agora, quando você reúne riffs de guitarra com texturas eletrônicas, baião, reggae e elementos psicodélicos, você sente que está dando continuidade àquela visão musical.

Lúcio: Sim, né? Eu acho que tudo que a gente faz é uma continuação. O rompimento é só quando você morre. Porque até então, toda a contribuição que qualquer artista faz é uma continuação, né.

Começou com o primeiro lá, quando você era jovem, ou não também, que tem gente que começa mais tarde, mas tudo, na verdade tudo é, digamos assim, é uma linguagem.

Linguagem não, é mais uma cédula de identidade. É uma coisa que se expande para qualquer âmbito criativo. De literatura, cinema, existem as digitais, o artista tem a própria digital e, mesmo que você não saiba, não tá explícito lá o nome dele, você sabe que é ele.

Então, eu acho que é o lance da continuidade mesmo. Essas referências, são referências que fazem parte da minha vida inteira. Eu acho muito bom aqui em São Paulo, que aqui é um lugar onde todos os nichos culturais convivem e sobrevivem.

Isso é muito bacana e tem um negócio que eu tô achando muito foda aqui em São Paulo recentemente, que são os DJs que discotecam o forró e as festas são muito bombadas porque o baião, o xaxado, o rastapé, todos esses ritmos, o forró, todas essas coisas fazem parte da cultura pernambucana, principalmente da minha época, que era uma coisa muito de autofagia.

O Pernambucano, ele tem esse lance de se alimentar sem ter pudor. Então, não é que eu busque fazer isso, é que isso é mais forte na hora que eu estou fazendo a música.

Eu sinto necessidade de ter as coisas e aí elas vão acontecendo e tal, e eu acho que isso é mais uma questão da minha digital mesmo, da minha linguagem.

TMDQA!: Falando sobre o processo criativo desse novo disco. Quais foram as principais referências para essas composições e como foi o estudo para a criação das músicas do disco.

Lúcio: É difícil, porque eu tenho muita referência. Eu busco referências de muitos lugares diferentes, mas não necessariamente música. Mas eu posso te passar umas referências bem legais.

Eu li um livro e não faz muito tempo, cara. Na verdade, esse livro acabou se tornando uma peça de teatro que eu fiz a trilha dela ao vivo, livro, que chama “Escute as Feras”.

É um livro que virou um best-seller, a história de uma francesa, antropóloga, que foi fazer uma pesquisa de uma tribo indígena ali na região da Sibéria e tal. E aí ela é atacada por um urso.

E aí, pra mim, foi um desafio fazer essa trilha, porque o livro, ele é muito sugestivo, né? No sentido de que cada um cria o mundo, né? Cada um cria um universo.

Quando você lê um livro, você cria os seus personagens, você tem uma impressão única daquilo.

E aí foi baseado nessa minha conexão com o livro pra criar essa imagem, quando eu fui fazer a música da peça, eu usei no meu disco, no sentido que eu quis criar camadas cinematográficas na cabeça das pessoas.

E a guitarra ia ser um locutor, ia ser um narrador. Ela ia narrar a história. E o resto ali ia servir como uma cama, digamos, uma cama musical, pra cada um ter suas impressões.

E aí, cara, eu tenho me divertido demais, porque cada pessoa me conta uma ideia diferente. Isso chama música cinemática. É a música que remete às imagens. Essa foi a minha busca principal, assim, no começo, pra referência pra produzir o disco.

Aí o resto foi só pincelada, né? Depois que você cria a ideia, o resto vira meras pinceladas. Esse start inicial é o mais difícil.

TMDQA!: Você comentou em uma entrevista que gravou o álbum inteiro com uma única guitarra que está com você há cerca de 30 anos. Como esse instrumento, com o qual você está tão familiarizado, influenciou no resultado do disco.

Quando eu tô buscando fazer uma canção, a minha pretensão é arrancar um pouco de emoção da pessoa que vai ouvir. Seja qualquer for, assim, então pode ser entusiasmo, alegria, tristeza, sei lá, saudosismo, enfim, qualquer relação sensorial que a música tiver com um ouvinte, pra mim, é o motivo dela ter sido criada.

Tem o lance da praticidade. Já gravei com muitos instrumentos. Eu já tive aquela fantasia de ter muita guitarra. E, enfim, mas depois eu apurei isso na ideia de que um instrumento, ele é uma extensão do que você é.

Então, lógico que, se tiver um instrumento melhor, mais legal, você desenvolve um pouco melhor também suas teses, você terá mais conforto, né? Mas, de jeito nenhum, isso faz diferença, sabe.

TMDQA!: É engraçado a gente pensar que você usou uma guitarra antiga em um disco que explora justamente elementos do futurismo. Como você enxerga esse contraste entre passado e futuro.

Lúcio: Assim, se você encarar que a sua vida é uma escada e você vai subindo um degrau por degrau, você tem que agradecer a cada degrau que você pisou atrás, desde o primeirão lá atrás, né.

E entender que tem muitos degraus ainda até você chegar no final dessa escada, que eu acredito que é o momento que acaba tudo. Lá em cima tem um precipício. [risos].

Quando eu fiz essa relação do futurismo, que eu concordo com o movimento inteiro e acho que o movimento foi muito importante e, ao mesmo tempo, radical, né? Porque a ideia do futurismo, do conceito mais arraigado deles, é a abnegação do passado.

Tipo, a destruição completa dos museus e manuscritos do passado. Eu acho isso uma tremenda tolice. Não concordo com essa parte do futurismo, mas isso aí é a parte mais radical.

Então, é a compreensão do futuro levando em consideração o que você já conseguiu de bagagem durante a vida. O lance da projeção futurística da sua arte depende muito do seu passado.

TMDQA!: E refletindo um pouco sobre a sua trajetória. Depois de muito tempo sendo associado à Nação Zumbi, o que o trabalho solo te permite expressar que você não encontrava espaço em outros projetos.

Lúcio: Cara, tudo tem seus prós e contras, né? Tá numa banda grande, tem o seu conforto. Que é aquela coisa de que anualmente existem uns shows já, que a banda tem uma quantidade de fãs e aquilo é só alimentar.

E todos os caras que eu conheci que eram de banda e foram tentar carreira solo, eles passaram pelo mesmo lance. E esse conforto, de repente, ele é rompido, né? Você rompe com essa zona de conforto e você precisa trabalhar.

Aí é onde divide os artistas. Se você é do tipo que antigamente na banda, você era um cara muito acomodado, quando você sai, você se apaga praticamente, cara, porque você tem que criar uma metodologia própria de trabalhar sozinho, você tem que investir nos seus projetos, você tem que desenvolver esses projetos, tentar entrar nos nichos de trabalho novos que você está empreendendo.

Então, cara, depende muito do espírito, digamos que assim, de trampo mesmo, cara, de correr atrás, sabe.

Eu já era um cara que tinha… sempre fui assim… tanto que eu fiz muitos projetos muito antes de todos eles. O “Maquinado” saiu em 2007, o “Baile Perfumado” foi a trilha que eu participei em 98.

Assim, eu sempre estive envolvido no cinema. Eu fiz um “Amarelo Manga”, que foi em 2003. Então, assim, trabalhar com música pra mim é a minha meta. É continuar trabalhando com música.

Eu vou fazer uma carreira solo com disco, como guitarrista, vou fazer uma trilha pra filme, vou fazer… eu vou ficar trabalhando com música, sabe? E tudo isso, obviamente, todo esse nicho de trabalho que eu conquistei foi devido ao meu know-how dentro da Nação Zumbi.

Foi o que eu criei lá dentro, a minha contribuição lá dentro de muitos anos, de 30 anos. E o resultado dessa contribuição foi o que me deu espaço pra eu fazer o que eu faço hoje.

Eu sou um privilegiadíssimo e eu me considero muito privilegiado de ter muitos amigos que eu tenho, da minha família linda de morrer, de tudo que eu tenho, assim, de tocar do jeito que eu gostaria de tocar.

Enfim, então, esse espaço, ter tido essa história e, ainda por cima, poder olhar pra frente, olhar pro futuro e ainda visualizar caminhos, visualizar, digamos, novas intervenções.

TMDQA!: A gente tá vivendo um momento em que tudo é muito acelerado, principalmente nas redes sociais. Sendo um artista que passou por várias fases desse mercado, como você enxerga essa mudança no consumo da música.

Isso influencia de alguma forma a maneira como você pensa nos seus lançamentos.

Lúcio: Tem que rolar um upgrade aí, porque senão você fica parado no tempo. Porque quando a gente foi contratado em 93, naquela época ainda era vinil, implantação do CD.

Tanto que os dois discos saíram de vinil na época, ainda existia fábrica de vinil no Brasil, né? Mas no mercado estava sendo implantado o CD. E de lá pra cá foram muitas mídias, cara, foram muitas, sabe.

Assim, até o MP3 passou por várias versões diferentes também. Eu tô falando de 30 e poucos anos, né? De 33 anos, de 93 pra cá. Se você não fizer esse upgrade, você tá fora do jogo, você tá fora do mercado.

Você precisa se atualizar, cara. Era muito mais difícil antigamente você ter uma carreira artística sem ter apoio de uma gravadora, cara, sem ter apoio de pessoas que já tivessem o know-how de trabalhar dentro desses caminhos.

Era difícil porque só tinha um veículo. Era a rádio. Você precisava ter negócio com rádio. Podia ser uma rádio local da sua cidade? Podia, mas você ia se tornar aquele fenômeno local, como existiria e até hoje existe.

São os artistas que são fenômenos locais, eles são grandes, mas eles só são lá da cidade deles. Então, pra você chegar em cadeia nacional, cara, e tocar pra todo mundo, só através de gravadora.

Não tinha como, porque tinha toda uma montagem do mercado, sabe? A gravadora pega o artista, vende ela pra rádio, a rádio distribui aquilo ali. Toda uma cadeia de negociação.

E eu lembro de uma época de ouvir da boca de diretores artísticos da época que eles falavam tipo assim… cara, no final dos anos 80 pra começo de 90, nem importava mais a qualidade da banda ou do artista.

Qualquer coisa que você pegasse e você contratasse e divulgasse, aquilo vendia. Então você fazia uma projeção, vai gastar quanto pra gravar, meu filho? Ah, vou gastar, sabe, 30.

000. Bom, vou gastar mais uns 40 aqui pra te divulgar na rádio. Se der certo, tá massa. 70. 000 pra gravadora não era nada. Então eles pegavam um artista qualquer, botava lá, aí quando eu via, vendia.

TMDQA!: Lúcio, pra finalizar o nosso papo, eu quero saber como tem sido os shows desse novo disco, a recepção do público? Tem alguma música que é mais desafiadora ali no ao vivo.

Lúcio: Vou te falar que desafiador sempre é. Eu sou um cara de banda e ter meu nome lá na frente escrito, na frente da casa, pra mim ainda é uma coisa meio estranha.

Eu estou lidando com isso aos poucos, porque eu decidi fazer isso. Mas, de qualquer forma, eu tenho sido muito agraciado pelo público, muito reconhecido, cara, eu não sei nem se eu mereço.

É uma reciprocidade muito bonita. E, nesse disco em particular, eu senti que eu tive um pouco mais de recepção das mulheres, cara, que era uma coisa que eu queria muito.

Tanto que a parte gráfica do disco, a parte da identidade visual dele, quem faz é minha namorada, que é a Miwa Shimosakai. E ela é uma artista gráfica incrível e isso trouxe uma resposta muito direta do público feminino, porque eu, como guitarrista, sempre tive aquela coisa do público homem que é músico, que é guitarrista e tal, e eu rompi um pouco essa barreira pras pessoas que só gostam de música e que não estão interessados em qual pedal eu uso ou coisas assim.

E eu queria muito isso pra minha vida. Não renegando meus amigos e meus fãs e meus colegas que vivem disso, que gostam disso, mas o meu rolê nunca foi esse, sabe.

Eu me interesso por equipamentos, mas, cara, eu tô nessa pela música, né? Então, assim, estar recebendo esse approach feminino, cara, nos shows que tem ido cada vez mais mulheres e, enfim, eu vi também num gráfico de resolução de pós-lançamento, que o público cresceu bastante.

Nossa, eu fiquei feliz demais em saber disso.

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