A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva pode representar um divisor de águas para a América Latina, avalia o cientista político Gaspard Estrada, da London School of Economics.
Em entrevista à RFI, ele destaca a mobilização espontânea da sociedade em defesa da democracia, mas alerta para um Congresso conservador, pressões econômicas e desafios na relação com os Estados Unidos.
Segundo ele, o resultado estimula forças progressistas no exterior, embora não permita uma tradução eleitoral automática.
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva representa, na avaliação do cientista político Gaspard Estrada, um momento de inflexão para a região, em um cenário marcado pelo avanço de forças conservadoras e de extrema direita.
Especialista em América Latina e integrante da unidade Sul Global da London School of Economics, ele considera que o resultado brasileiro ultrapassa a disputa eleitoral e recoloca no centro do debate a defesa do multilateralismo, dos direitos humanos e da agenda ambiental.
Para Estrada, a mobilização da sociedade brasileira durante o segundo turno constitui um dos principais elementos para compreender o resultado. O cientista político ressalta que a participação nas ruas e nas redes sociais não se limitou à estrutura partidária ou à atuação da campanha de Lula, mas expressou uma disposição de setores da sociedade de impedir o retorno da extrema direita ao poder.
A mobilização digital também teve papel importante na reta final da campanha. Estrada destaca a atuação do deputado André Janones, responsável por uma iniciativa de comunicação que ampliou a circulação de informações favoráveis à candidatura petista.
A vitória eleitoral, contudo, não elimina os obstáculos que Lula terá de enfrentar para governar. Estrada avalia que a composição do Congresso será um dos principais desafios do próximo mandato, com o Partido Liberal ocupando a maior bancada e o bolsonarismo mantendo força política.
O avanço da direita, segundo ele, ocorreu sobretudo sobre o centrão, enquanto a esquerda, em particular o Partido dos Trabalhadores, manteve resultados próximos aos da legislatura anterior.
O cientista político prevê uma atuação mais confrontadora dos setores bolsonaristas no Legislativo, com tentativas de revanche política e pedidos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal.
A disputa institucional, afirma, deverá se intensificar a partir da próxima legislatura. “Na verdade, o que a gente verá na próxima legislatura é um Congresso onde as posições políticas serão muito mais afirmadas.
Haverá, eu acho, um desejo de revanche eleitoral dos bolsonaristas, com, sem dúvida, pedidos de impeachment a ministros do STF.”.
Antes da posse, em janeiro, a economia deverá concentrar as preocupações do governo. Estrada aponta a expectativa de reação do mercado financeiro, que havia apostado na vitória de Flávio Bolsonaro, e prevê pressão sobre Lula para apresentar medidas de contenção de gastos.
Na avaliação do entrevistado, a condução da economia será o principal desafio imediato, enquanto a relação com o Congresso e o Judiciário deverá dominar a agenda política a partir do início do próximo mandato.
A eleição brasileira também pode abrir espaço para uma relação mais estratégica com a França e os demais países europeus. Estrada considera que a parceria histórica entre Brasil e França poderia ter avançado mais, caso não houvesse resistência francesa ao acordo comercial entre Mercosul e União Europeia.
A façanha de Lula também pode oferecer argumentos a lideranças progressistas europeias, embora Estrada ressalte que as disputas eleitorais são determinadas sobretudo por questões nacionais.
No caso francês, ele não considera que a eleição brasileira tenha capacidade de influenciar diretamente os candidatos. O impacto, portanto, não estaria na reprodução direta do resultado brasileiro, mas na possibilidade de que a mobilização social observada no país inspire movimentos semelhantes em outras democracias.
A relação bilateral com os Estados Unidos deverá continuar marcada pela dimensão econômica, apesar das tensões provocadas pelas tarifas e pelas sanções mencionadas durante a entrevista.
Estrada considera que a interdependência comercial entre os dois países torna improvável uma ruptura. “O que vem por aí, eu acho que haverá uma manutenção da relação bilateral, inclusive porque há uma parceria econômica que é muito grande, já seja em termos de importação pelos Estados Unidos, de laranja, açúcar, carne, mas também produtos tecnológicos, aviões, aço.”.
Para o cientista político, a vitória de Lula pode ampliar a margem de negociação brasileira, sobretudo diante de uma eventual fragilização política do presidente norte-americano, Donald Trump, após as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos.
Ao analisar o significado político da eleição, Estrada rejeita a interpretação de que o resultado tenha sido apenas uma vitória de um projeto partidário. Para ele, a disputa foi marcada sobretudo pela defesa da democracia, do Estado de direito e da Constituição de 1988.
Estrada considera que a mensagem das urnas ultrapassa a plataforma eleitoral do PT e representa uma manifestação da sociedade em favor de princípios democráticos.
A mobilização que contribuiu para a vitória, conclui Estrada, também deverá servir como referência para o próprio governo. Lula terá de incorporar essa disposição da sociedade ao exercício do poder.
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