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Desejo de mudança impulsionou Flávio; Lula leu mal o eleitorado, diz cientista político

A vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno das eleições no Brasil pode ser explicada por dois fatores principais: as pesquisas voltaram a subestimar

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Desejo de mudança impulsionou Flávio; Lula leu mal o eleitorado, diz cientista político

A vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno das eleições no Brasil pode ser explicada por dois fatores principais: as pesquisas voltaram a subestimar o eleitorado bolsonarista e a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva interpretou de forma equivocada o desejo de mudança manifestado pelos eleitores, avalia o cientista político Gaspard Estrada, membro da unidade Sul Global da London School of Economics (LSE).

Para Estrada, o resultado confirmou uma tendência já observada nas disputas presidenciais de 2018 e 2022: as pesquisas têm dificuldade em captar o tamanho real do eleitorado bolsonarista nos últimos dias de campanha.

Segundo ele, a votação de Lula ficou próxima das projeções dos institutos, enquanto Flávio Bolsonaro voltou a superar as expectativas. "Há muito claramente essa situação em que as pesquisas erram ao estimar o número de eleitores do bolsonarismo", afirmou.

O cientista político também identifica um erro de diagnóstico na campanha petista. Em sua avaliação, Lula disputou a eleição sob a premissa de que o eleitorado buscava a continuidade das políticas implementadas durante seu governo, quando os resultados das urnas apontam justamente para uma demanda por mudanças.

O próprio slogan da campanha do presidente Lula, 'Brasil pronto para mais', sinaliza justamente uma vontade de continuidade com as políticas públicas atuais", observou.

Para Estrada, a composição do futuro Congresso e o desempenho da direita nas urnas mostram que uma parcela significativa dos eleitores deseja uma mudança de rumo.

O que demonstra esta eleição, e em particular o Legislativo, é que há um grande sentimento de mudança", resumiu.

Embora a campanha petista tenha incorporado esse discurso nas semanas finais da corrida eleitoral, a correção de rota teria ocorrido tarde demais. "É evidente que isso hoje é insuficiente, sem uma chacoalhada geral e uma mudança de rota no discurso", avaliou.

O pesquisador afirma que o presidente precisará promover uma revisão profunda da estratégia para o segundo turno. Na sua análise, não bastará mobilizar a base tradicional do lulismo.

Será necessário convencer os eleitores indecisos e aqueles que deixaram de comparecer às urnas de que um novo mandato pode produzir transformações concretas em suas vidas.

Estrada observa, porém, que ainda há fatores capazes de influenciar a mobilização do eleitorado na reta final da campanha. Entre eles está o pagamento do Bolsa Família com o reajuste de 15% anunciado por Lula em meados de setembro, previsto para 19 de outubro, na semana do segundo turno.

Na avaliação do cientista político, a medida pode ter reflexos sobre a participação eleitoral e ajudar o presidente a recuperar parte da desvantagem registrada no primeiro turno.

Estrada considera especialmente relevante o fortalecimento institucional do bolsonarismo no Congresso Nacional. Segundo ele, a ampliação da bancada do PL no Senado terá consequências que ultrapassam a atual disputa presidencial.

Esse resultado é muito significativo politicamente", afirmou. O cientista político lembra que os senadores exercem mandatos de oito anos e possuem prerrogativas decisivas em temas como a aprovação de autoridades, a composição do Supremo Tribunal Federal e eventuais processos de impeachment.

A consequência política disso vai além de um [eventual] mandato de Flávio Bolsonaro", destacou.

Na Câmara dos Deputados, ele vê outro dado histórico. Estrada observa que a reforma eleitoral aprovada para reduzir a fragmentação partidária está produzindo um Parlamento com menos legendas relevantes.

O principal beneficiário desse processo, afirma, foi o bolsonarismo, que alcançou um resultado recorde de 121 deputados federais.

Quem é o maior beneficiário político desta situação é o bolsonarismo", afirmou. Segundo o pesquisador, trata-se de um desempenho que não era registrado no país desde 1994.

Questionado sobre a reeleição de políticos envolvidos em denúncias de corrupção, desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro, como no caso Master, Estrada rejeita a ideia de que o tema tenha deixado de influenciar o comportamento dos eleitores.

Para ele, a corrupção continua sendo um fator importante na política brasileira, mas sua capacidade de influenciar o voto varia de acordo com a identidade política do eleitor.

Quando o escândalo de corrupção chega ao bolsonarismo, isso não tem uma variável realmente forte para explicar o voto", afirmou. Já quando as denúncias atingem adversários políticos, especialmente ligados ao PT, o impacto tende a ser maior.

Quando é na oposição ao Partido dos Trabalhadores, aí sim essa corrupção tem um resultado prático", concluiu.

Apesar da vantagem obtida por Flávio Bolsonaro no primeiro turno e do fortalecimento do bolsonarismo no Congresso, Estrada não considera a eleição decidida. Segundo ele, Lula ainda dispõe de reservas de votos entre os eleitores dos candidatos derrotados que não se identificam com a direita bolsonarista, além dos milhões de brasileiros que se abstiveram.

Para o cientista político, a capacidade de mobilizar esse eleitorado será determinante para o resultado do segundo turno.

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