Cena simples comendo um lanche em casa virou símbolo da liberdade conquistada após anos de violência.
Sentar em casa para assistir a uma novela. Passar a tarde vendo um filme. Ir ao shopping. Comer um lanche. Aos 81 anos, dona Maria de Lima tem descoberto prazeres simples que, segundo a neta, lhe foram negados durante os mais de 15 anos em que viveu com o ex-marido.
Foi só agora, longe do relacionamento marcado por violência, que ela comeu um lanche pela primeira vez. A cena foi registrada pela neta, a cabeleireira Ketelyn Kauane Ferreira Lima, de 22 anos, e compartilhada nas redes sociais como um daqueles pequenos momentos que ajudam a dimensionar a nova vida da avó.
Desde fevereiro, a jovem e o marido moram com Maria para cuidar dela. Para isso, Ketelyn conta que deixou a casa onde vivia, o trabalho e até o salão que mantinha em frente à residência.
A mudança colocou fim a uma rotina que, conforme o relato da neta, obrigava Maria a cuidar sozinha da casa e do então marido, mesmo quando estava doente.
Agora, conta Ketelyn, a avó acorda e recebe o café da manhã, os remédios e o almoço. Não precisa limpar a casa nem preparar comida. E ganhou algo que parece ainda mais simples: tempo para não fazer nada.
Uma das maiores descobertas dessa nova rotina tem sido a televisão. “Ela está muito feliz porque agora assiste à TV. Pode assistir à novela, pode assistir a um monte de coisas, porque antigamente ela não podia nem assistir à TV.
Hoje passa a tarde inteira assistindo a um filme, a uma novela. É uma coisa que ela não tinha antes.”.
Também vieram os passeios. Segundo Ketelyn, aos 81 anos, Maria foi ao shopping pela primeira vez. O lanche que aparece nas redes sociais também foi uma estreia.
Por trás dessas descobertas, no entanto, há uma história que a família diz ter levado anos para conhecer por completo. Segundo Ketelyn, a avó viveu por mais de 15 anos com o ex-companheiro e sofreu violência física, psicológica e verbal durante o relacionamento.
Ketelyn tinha menos de 12 anos quando a avó iniciou o relacionamento. Ela conta que as tentativas da família de manter a proximidade eram dificultadas pelo comportamento do homem.
A mãe de Ketelyn continuava morando perto de Maria e a visitava, mas, segundo a jovem, nem mesmo para ela a idosa relatava as agressões que sofria.
Foi somente no início deste ano que a família começou a descobrir o que acontecia dentro da casa.
Conforme Ketelyn, o então marido de Maria sofreu um AVC e precisou ser hospitalizado. Mesmo depois de anos de violência, segundo a neta, Maria permaneceu ao lado dele durante a internação e continuou cuidando dele quando retornou para casa.
A mãe de Ketelyn e um neto do homem também passaram a ajudar nos cuidados. Foi durante esse período que, segundo o relato da jovem, ocorreu uma nova tentativa de agressão.
Ketelyn afirma que o homem passou a sentir ciúmes da convivência entre Maria e o próprio neto e teria acusado os dois de manterem algum tipo de envolvimento. Em determinado momento, teria pegado um pedaço de madeira para atingir a idosa na cabeça.
O neto interveio e orientou Maria a sair da residência e procurar a família.
Com medo de que o homem fosse atrás dela, a família levou Maria para a casa de outra neta, mais distante. Mesmo assim, segundo Ketelyn, ele continuava procurando a idosa e a xingando.
Foi então que uma das netas levou Maria à Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher para registrar o caso. A idosa conseguiu uma medida protetiva contra o ex-marido.
Foi durante o atendimento na delegacia, segundo Ketelyn, que a família descobriu que a violência havia sido ainda mais grave do que imaginava.
A jovem relata que a avó contou à polícia ter sido vítima de abuso sexual e de agressões físicas antes de o então marido ser hospitalizado.
Poucos dias depois de procurar a polícia, a saúde da idosa piorou. Maria precisou ser hospitalizada e, conforme a neta, passou quase um mês em terapia intensiva.
Ketelyn conta que a avó enfrentou uma série de complicações de saúde. Segundo a jovem, Maria teve problemas cardíacos e um aneurisma cerebral, além de permanecer com a saúde bastante fragilizada.
Depois da internação, um oficial de Justiça retirou o ex-marido da residência, conforme relata Ketelyn. Foi nesse momento que ela decidiu reorganizar a própria vida para ficar ao lado da avó.
Hoje, além dos cuidados com a saúde, a família tenta devolver a Maria experiências que ficaram pelo caminho. Sair de casa é uma delas. Ketelyn conta que, durante o relacionamento, até uma visita rápida à filha podia terminar com o marido indo atrás da idosa.
É justamente por isso que Ketelyn começou a registrar a nova rotina nas redes sociais. A cabeleireira tem pouco mais de 5 mil seguidores e não esperava que a história da avó tivesse tanta repercussão.
Nos vídeos, tem Maria diante da televisão. Maria passeando. Maria conhecendo um shopping aos 81 anos. E Maria comendo um lanche.
Se você vive ou testemunha alguma forma de agressão, denuncie. O 180 atende 24 horas e pode orientar e acolher. Em situações de risco imediato, ligue 190. Seu gesto pode salvar uma vida.
- A cabeleireira tem pouco mais de 5 mil seguidores e não esperava que a história da avó t.
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