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Inteligência Artificial

Eleições 2026: IA é usada para ampliar ataques contra candidatas

A IA ganhou espaço em nova frente das eleições 2026: a produção em escala de imagens ofensivas contra mulheres na política

5 min de leitura
Eleições 2026: IA é usada para ampliar ataques contra candidatas

A inteligência artificial (IA) ganhou espaço em nova frente das eleições 2026: a produção em escala de imagens ofensivas contra mulheres na política. Um levantamento do projeto MonitorA identificou sinais de uso de IA em 25% das imagens classificadas como ataques ou insultos dirigidos a candidatas no X.

  • O resultado chama atenção porque o uso da IA identificado pelo estudo não está concentrado em deepfakes realistas produzidos para enganar eleitores.
  • A maior parte das imagens analisadas é formada por charges, memes, montagens e falsos materiais de campanha criados para humilhar, ridicularizar ou desumanizar as candidatas.
  • O MonitorA divide os conteúdos ofensivos em duas categorias. Os insultos são ofensas com linguagem hostil, mais dura que uma crítica, mas que não recorrem diretamente a marcadores de desigualdade, como gênero, raça ou religião. Foram identificadas 269 imagens nessa categoria.
  • Já os ataques buscam inferiorizar e deslegitimar candidatas com base em características associadas a grupos historicamente marginalizados, como gênero, raça, sexualidade, deficiência ou religião. Foram encontrados 391 conteúdos desse tipo.
  • Segundo o MonitorA, por seu caráter discriminatório, esses ataques deveriam ser removidos pelas plataformas.
  • Starlink será usada pelo TSE em locais remotos nas eleições 2026.
  • STF amplia acesso gratuito a serviços do TSE e sites de checagem nas eleições.
  • Eleições 2026: buscas no Google sobre multa eleitoral e venda de bebidas disparam.

Outros 9% dos casos ficaram em uma zona de incerteza, em que os pesquisadores não conseguiram determinar se houve ou não manipulação por IA.

A análise reuniu 11. 137 imagens publicadas em 9. 393 comentários em perfis de 132 candidatas. Os conteúdos foram monitorados em dois períodos da campanha: entre 16 e 24 de agosto, na largada da disputa, e de 2 a 11 de setembro, após a crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) e o caso Master.

Ao todo, 660 imagens foram classificadas como ofensivas contra candidatas no X.

IA não busca necessariamente enganar.

Marina Silva, Sâmia Bomfim e Erika Hilton concentram registros.

A candidata que concentrou o maior número de ataques e insultos foi Marina Silva (Rede), com 125 registros ofensivos. Na sequência aparecem Sâmia Bomfim (PSOL), com 111, e Erika Hilton (PSOL), com 109.

Juntas, as três candidatas responderam por quase metade das imagens ofensivas encontradas pela pesquisa.

O levantamento também mostra que as candidatas foram associadas a diferentes tipos de violência.

Entre os conteúdos contra Sâmia Bomfim, predominam ataques gordofóbicos. Segundo o estudo, 70,6% dos ataques direcionados à parlamentar foram classificados nessa categoria.

No caso de Erika Hilton, os ataques são principalmente transfóbicos. Quase metade das ofensas recebidas por ela, 47,9%, foi enquadrada dessa forma. Entre os conteúdos estão referências à negação da identidade de gênero e à reprodução de narrativas transfóbicas.

Marina Silva, por sua vez, aparece principalmente em conteúdos classificados como misóginos, desumanizantes e etaristas. Em algumas imagens, ela é representada como animal ou alienígena, enquanto outras utilizam alterações artificiais para modificar sua aparência e fazê-la parecer mais velha.

Sozinha, Marina foi alvo de 17% de todos os ataques e insultos direcionados às candidatas monitoradas.

Tipos mais frequentes de violência envolvendo IA.

Ataques também atingem candidatas da direita.

O levantamento encontrou casos envolvendo candidatas de diferentes posições políticas.

Duas candidatas do PL analisadas pelo estudo foram Julia Zanatta e Vanessa da Silva, conhecida como Negona do Bolsonaro.

Zanatta recebeu 76 registros ofensivos durante os períodos analisados. A distribuição, porém, foi desigual: 72 deles apareceram no segundo período, depois da viralização de imagens e.

As ofensas contra ela tinham dois eixos principais: a sexualização, com imagens de biquíni e comentários insinuando interesse sexual, e questionamentos sobre sua identidade política, associando-a a um suposto “falso conservadorismo”.

Vanessa da Silva, por outro lado, foi alvo de 30 imagens ofensivas. Segundo o estudo, 70% continham ataques racistas, incluindo representações relacionadas ao período escravocrata.

O relatório estabelece paralelo entre os dois casos: enquanto Julia aparece em conteúdos com ofensas sexualizantes, Vanessa é retratada como escravizada ou em publicações que a associam a sentimentos de nojo.

MonitorA já havia identificado violência contra candidatas no início da campanha.

A análise mais recente dá continuidade ao acompanhamento feito pelo MonitorA durante a campanha. Em levantamento realizado entre 16 e 24 de agosto, o projeto identificou 1.

318 ataques e insultos contra mulheres no X. Naquele período, Marina Silva concentrou 32% dos registros, seguida por Erika Hilton, com 23%, e Bia Kicis, com 11%.

O MonitorA acompanha padrões de violência política de gênero nas plataformas digitais desde 2020. Em 2026, a quarta edição do projeto reúne InternetLab, Núcleo Jornalismo e Instituto Democracia em Xeque, que participam da coleta, metodologia, análise e produção dos levantamentos.

TSE criou regras para uso de IA nas eleições.

O uso de IA durante a campanha também passou a ser tratado de forma específica pela Justiça Eleitoral.

Ao regulamentar as eleições de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabeleceu restrições para conteúdos sintéticos produzidos ou alterados por IA. Entre as regras está a limitação, nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores ao pleito, da circulação de novos conteúdos sintéticos que modifiquem imagem, voz ou manifestação de candidatos e pessoas públicas.

A regulamentação também prevê responsabilidade dos provedores em determinadas situações envolvendo conteúdos sintéticos não identificados ou que violem outras regras eleitorais.

O TSE ainda proibiu alterações em fotografias, vídeos ou outros registros audiovisuais que contenham cenas de sexo, nudez ou pornografia, em medida relacionada à proteção da dignidade de candidatas e candidatos.

Em setembro, o tribunal também apresentou ferramentas desenvolvidas por empresas de tecnologia para ajudar a proteger a imagem e a voz de mulheres que atuam na política contra usos indevidos de IA.

O estudo do MonitorA mostra, porém, que o uso da tecnologia durante a campanha não se limita à produção de conteúdos que tentam parecer reais. A IA também pode ser utilizada para acelerar a criação de memes, sátiras, montagens e outros materiais ofensivos direcionados a candidatas.

Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.

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