● ELEIÇÕES 2026
O debate estava marcado para as 21h30 de Brasília (20h30 em Mato Grosso do Sul) desta quinta-feira (1º/10). O cancelamento foi anunciado pela Globo às 20h39 de Brasília.
Os candidatos que foram à TV Globo, no Rio de Janeiro, chegaram a ocupar a sala de imprensa e o cenário estava montado. Às 20h39 de Brasília desta quinta-feira (1º/10), menos de uma hora antes do início, a emissora anunciou que o último debate presidencial antes do 1º turno estava cancelado.
A decisão veio depois de uma sequência de decisões judiciais nas horas anteriores. A primeira, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), proibiu a Globo de exibir o púlpito vazio reservado a Lula (PT), que já havia avisado que não iria. A segunda, do Supremo Tribunal Federal (STF), mandou a emissora incluir Renan Santos (Missão) no lugar do presidente. No meio delas, Flávio Bolsonaro (PL) também desistiu.
Entenda em 5 pontos
- Lula não iria. O presidente avisou a Globo na quarta (30/9) que faltaria. Pelas regras assinadas por todos os partidos, inclusive o PT, o púlpito dele ficaria vazio, com placa de identificação.
- O TSE derrubou o púlpito vazio. A pedido da coligação de Lula, a ministra Estela Aranha proibiu a exibição do púlpito e as perguntas ao ausente.
- Flávio desistiu. O candidato do PL anunciou que não iria mais, alegando "censura imposta ao evento pelo TSE".
- O STF incluiu Renan. O ministro Gilmar Mendes mandou a Globo colocar Renan Santos (Missão) na vaga de Lula, derrubando decisão do presidente do TSE.
- A Globo cancelou, citando "insegurança jurídica" e "interferência indevida" na liberdade de organizar debates. O 1º turno termina sem nenhum confronto entre os dois líderes das pesquisas.
Em nota, a Globo afirmou que "as sucessivas decisões judiciais tomadas momentos antes da realização do debate causam insegurança jurídica e representam uma interferência indevida na liberdade que os veículos de imprensa têm de organizar os debates eleitorais". A emissora agradeceu aos candidatos que compareceram: Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante) e Romeu Zema (Novo).
Os debates presidenciais do 1º turno de 2026
Fonte: levantamento da Folha de S.Paulo. O debate da Band teve o menor número de participantes desde 1989.
Como o debate caiu, hora a hora
Linha do tempo: como o debate caiu
Horários de Brasília. Em Mato Grosso do Sul, uma hora a menos.
A briga do púlpito vazio
A regra do candidato ausente não foi uma surpresa de última hora. Ela constava do item 7 da ata do debate, negociada com a Globo e assinada pelos representantes de todos os partidos convidados, inclusive o PT.
O que dizia o item 7 da ata, assinado pelo PT
"Candidato ausente. Se algum candidato convidado faltar ao debate, o seu lugar permanecerá vazio, com uma placa que o identifique pelo nome."
Na vez em que ele faria a pergunta, o lugar seria mostrado em destaque, e o mediador lembraria a ausência. Na primeira rodada de tema livre, cada candidato presente poderia usar 30 segundos para dizer o que perguntaria ao ausente, sem ofensas pessoais.
A ata foi assinada pelos representantes de todos os partidos convidados. Pelo PT, assinou o advogado Gabriel Fialho Filho, segundo a CNN Brasil.
Nesta quinta, a coligação de Lula, "Brasil Pronto Pra Mais", pediu ao TSE a suspensão desse item. A ministra Estela Aranha concordou. Para ela, a cláusula tinha "aparente intuito de compelir os candidatos a comparecer ao debate, renunciando à facultatividade de participação assegurada em lei". A ministra escreveu que, mesmo com o regulamento assinado, a participação continua opcional, e que a consequência da ausência deve ser apenas perder a chance de falar, sem punições que funcionem como coerção.
Para Flávio, a decisão foi "censura". Minutos depois, ele anunciou que também não iria. Mais tarde, em vídeo ao lado de aliados como Tereza Cristina, de Mato Grosso do Sul, Pablo Marçal e Adolfo Sachsida, disse que não compactuaria "com a censura e a interferência do Judiciário nas eleições" e fez uma transmissão ao vivo no YouTube no horário do debate.
Por que Renan Santos estava fora do debate
O caso de Renan Santos é o mais técnico da noite, e o que mais confunde. Ele não foi barrado por um único motivo, mas por uma combinação de lei, regulamento da emissora e decisões judiciais que se contradisseram ao longo do dia.
Por que Renan Santos ficou fora do debate
- A lei não garantia a vaga. A Lei das Eleições só obriga as emissoras a convidar candidatos de partidos com pelo menos cinco parlamentares no Congresso Nacional. O Missão, partido de Renan, tem um deputado federal.
- A regra da Globo era opcional. O regulamento previa que, se alguém desistisse, a emissora poderia chamar o candidato mais bem colocado na pesquisa Quaest de 28/9 entre os que não tinham vaga garantida. Renan, com 3%, era o primeiro da fila. Mas o texto dizia que o convite ficava "a exclusivo critério" da Globo, que não o chamou.
- O TSE negou. Kassio Nunes Marques reconheceu que Renan se encaixava no critério, mas concluiu que isso "não equivale a convite".
- O STF primeiro não analisou. Cármen Lúcia rejeitou a ação do Missão por entender que aquele tipo de processo não servia para discutir o convite a um candidato específico.
- Depois, o STF mandou incluir, mas era tarde. Gilmar Mendes, a pedido do Solidariedade, escreveu que, como Renan "atende ao requisito objetivo previsto no próprio regulamento do debate, sua exclusão não pode se dar ao talante da emissora". Para o ministro, a Globo criou uma expectativa legítima ao incluir o candidato nas sabatinas do Jornal Nacional. Pouco mais de uma hora depois, a emissora cancelou o debate.
Resumo: Renan não chegou a ser barrado no fim. Ele começou fora pela regra legal e por decisão da emissora, perdeu no TSE e em uma primeira tentativa no STF, ganhou na segunda, mas o debate deixou de existir.
Um detalhe chamou atenção nos bastidores: o pedido que deu vitória a Renan no STF não foi feito pelo Missão, mas pelo Solidariedade, partido presidido pelo deputado Paulinho da Força, que pediu a Gilmar Mendes que estendesse ao candidato os efeitos de uma decisão anterior sobre liberdade de expressão no período eleitoral. A decisão de Gilmar anulou a de Nunes Marques, presidente do TSE, em mais um episódio de atrito entre ministros das duas cortes nesta campanha.
Renan havia convocado apoiadores para um ato em frente à sede da Globo. Depois do cancelamento, discursou ali. Afirmou que participou de entrevistas no Jornal Nacional, no jornal O Globo e na GloboNews, mas que, quando chegou a discussão do debate, "ninguém mais respondia". E desafiou Flávio a debater "num bar, em qualquer lugar".
Quem é Renan Santos
Um dos fundadores do MBL (Movimento Brasil Livre), Renan Santos disputa a Presidência pelo Missão, partido criado pelo grupo. Ataca tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro e tem 3% das intenções de voto no Datafolha divulgado nesta quinta, empatado com Ronaldo Caiado e atrás de Augusto Cury (4%). Participou do único debate realizado no 1º turno, o da Band, em agosto.
O que disseram os candidatos
Do estúdio da Globo, Zema, Caiado e Cury culparam Lula pelo cancelamento e criticaram o Judiciário. Lula, no Flow Podcast, disse que há tempos questiona o modelo de debate da emissora e, perguntado pelo apresentador Igor Coelho sobre a ausência, respondeu: "Gosto mais de você do que da Globo".
"Acabo de tomar a decisão de não ir ao debate da Globo em função da censura imposta ao evento pelo TSE. A imprensa tem que ser livre e as eleições limpas."
Flávio Bolsonaro (PL), no X
"Você não pode levar uma pessoa que tem 49% a debater com o que tem 1%."
Lula (PT), no Flow Podcast, no horário em que o debate iria ao ar
"Flávio, eu estou na tua cidade, eu estou na tua casa. Se precisar ir a um bar, em qualquer lugar debater, eu vou."
Renan Santos (Missão), em discurso na porta da Globo
"Nós estamos vendo a Justiça a serviço do Lula."
Romeu Zema (Novo)
"O Lula provocou tudo isso. Ele foi provocado pelo Flávio na minha cidade, em Goiânia, dizendo vai lá que eu vou lhe enfrentar. E bateu em retirada."
Ronaldo Caiado (PSD)
"O teatro da política precisa de um psiquiatra?"
Augusto Cury (Avante), na sala de imprensa da Globo
A reação das instituições
Entidades de imprensa: ABERT (emissoras de rádio e TV), ANER (revistas) e ANJ (jornais) divulgaram nota conjunta classificando as decisões como "uma agressão à liberdade de imprensa ao forçar a condução do debate em desrespeito a regras acordadas há meses entre a emissora e os partidos".
Presidente do STF: Edson Fachin divulgou nota pedindo "serenidade, consciência e confiança nas instituições" aos mais de 158 milhões de eleitores e elogiando o trabalho da Justiça Eleitoral. A nota não cita o debate diretamente.
Um 1º turno sem confronto entre os líderes
Com o cancelamento, a campanha de 2026 termina o 1º turno sem nenhum debate entre Lula e Flávio Bolsonaro, que somam 85% dos votos válidos no Datafolha divulgado nesta mesma quinta. Lula não foi a nenhum debate na campanha. Flávio havia faltado ao da Band e, nesta quinta, desistiu do da Globo.
Já aconteceu antes?
- 2006: Lula, candidato à reeleição e líder nas pesquisas, faltou aos três debates do 1º turno, incluindo o da Globo, onde sua cadeira apareceu vazia. A eleição foi ao 2º turno, e ele debateu quatro vezes com Geraldo Alckmin.
- 1998: Fernando Henrique Cardoso não participou de debates e venceu no 1º turno.
- 2018: Jair Bolsonaro foi aos dois primeiros debates. Depois da facada em Juiz de Fora, não voltou a participar.
- 2022: RedeTV e TV Aparecida cancelaram debates do 1º turno porque Lula e Bolsonaro não confirmaram presença.
Segundo a Folha, é a primeira vez desde 2006 que um dos líderes das pesquisas não vai a nenhum debate televisionado no 1º turno.
O que muda para o eleitor
- O eleitor chega ao domingo (4/10) sem ter visto Lula e Flávio frente a frente nem respondendo aos demais candidatos.
- Quem ainda está indeciso perde a última vitrine nacional de comparação de propostas. O horário eleitoral gratuito na TV também terminou nesta quinta.
- Se houver 2º turno, em 25/10, a disputa entre os dois primeiros colocados volta a ser regulada pelas mesmas regras, e a pressão por um confronto direto tende a crescer.
- Para comparar propostas, os planos de governo registrados por cada candidatura estão disponíveis no site do TSE, no sistema DivulgaCandContas.
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Por Amin Feres, redator da ULTRA NOTÍCIAS, com informações da TV Globo, g1, Folha de S.Paulo, O Globo, CNN Brasil, Poder360, UOL e Projeto Comprova. A ULTRA NOTÍCIAS não apoia candidatos.
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