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Economia

Em que exato momento mais dinheiro deixa de melhorar sua vida?

A linha da pobreza transformou carência em indicador de política pública

5 min de leitura
Economia — imagem padrão

Há mais de 20 anos, perguntei ao meu orientador de doutorado, um sueco, o que o levava a trabalhar com tanto afinco sabendo que quase 60% do seu salário acabaria, por via da coleta fiscal, nas arcas insaciáveis do Estado.

Respondeu-me que quanto mais ganhasse, mais contribuiria para o bem-estar de todos. Eu, vindo de latitudes menos crédulas, achei a resposta boba.

Sempre me pareceram frágeis estes sistemas econômicos fundados sobre uma ideia excessivamente benigna da natureza humana. Ora, a verdade é que o homem é um animal vaidoso, invejoso, mesquinho e ferreamente competitivo, sempre com a luneta posta no triunfo do vizinho para lhe rogar secretas pragas.

Com um punhado de moedas no bolso, o sujeito compra a ilusão de ter superado os piores fantasmas da infância, enquanto a sociedade, educadamente, finge não reparar na pequenez que continua a roer debaixo da roupa de grife.

Por outro lado, quando a riqueza individual atinge proporções bilionárias, ela passa a mercantilizar os bens comuns e o próprio meio ambiente, acelerando fenômenos de anomia e fragmentação comunitária, ao mesmo tempo que subverte a soberania dos Estados nacionais e desequilibra as forças do mercado em favor de uma oligarquia global.

Na democracia não há espaço para o tecnograndiosismo de Musk, Zuckerberg e Thiel. O pesquisador Luke Kemp da Universidade de Cambridge, depois de analisar mais de 400 sociedades ao longo de 5.

000 anos, concluiu que a concentração de riqueza provocou, muitas vezes, a fragilização de instituições e o colapso de civilizações.

Mas o debate político em torno da taxação dos ricos também me deixa inquieto, há algo castrador e punitivo na medida. É importante, descontada a devoção. Quando a fiscalidade se transforma num instrumento de ressentimento, a política abdica do seu papel de edificar o bem comum para se limitar a nivelar por baixo a ambição humana.

A invectiva "taxem os ricos" de Pramila Jayapal, Jean-Luc Mélenchon ou Bernie Sanders confunde justiça fiscal com hostilidade à riqueza.

O caminho tem de ser outro. Nos círculos acadêmicos, está ganhando densidade o debate sobre os limites materiais da riqueza. A partir de que ponto mais dinheiro deixa de trazer qualidade de vida.

Há limites para a quantidade de férias nas Bahamas que podemos fazer, para a qualidade da medicina a que temos acesso ou para o conforto que uma casa nos dá. Uma mansão de quarenta quartos não traz uma felicidade proporcional à de quatro.

Há uma linha de corte a partir da qual mais dinheiro deixa de gerar felicidade. A partir daí, a riqueza converte-se num fardo feito de segurança privada, perda irremediável de anonimato e burocracia contínua para gerir portfólios de investimento, reduzindo a vida a um exercício de custódia e isolamento social.

À data da sua morte, o family office de Abilio Diniz mantinha duas centenas de funcionários só para gerir a sua fortuna.

Em 1978, Jan Drewnowski introduziu a ideia de uma linha de riqueza (affluence line), procurando medir não a escassez, mas o ponto a partir do qual recursos adicionais já pouco acrescentam à satisfação das necessidades materiais.

Em 2006, o sociólogo brasileiro Marcelo Medeiros propôs uma metodologia para defini-la a partir da distribuição de renda e do próprio limiar de pobreza. Pierre Concialdi pesquisou o tema no contexto das economias europeias, enquanto a acadêmica belga e neerlandesa Ingrid Robeyns, a partir de 2017, o incorporou a uma teoria normativa dos limites da riqueza e cunhou o termo "limitarianismo.

Desde então, o tema passou a dialogar com a literatura acadêmica sobre suficiência, autonomia individual, desigualdade política e concentração patrimonial.

Fixar a linha de corte está longe de ser um exercício matemático simples. Não depende apenas do custo de vida ou da capacidade de consumo, mas de fatores psicológicos e sociais.

Eventualmente de gênero também. Por isso é um desafio interessante.

O propósito desta ferramenta conceptual não é proibir a acumulação de patrimônio, mas oferecer uma métrica que permita a cada indivíduo reconhecer a sua própria zona de saturação material.

Ultrapassado esse limiar, a escolha permanece pessoal.

Alguns continuarão a acumular, porque a riqueza pode saturar como fonte de bem-estar sem saturar como instrumento de poder; outros poderão ver nesse ponto a oportunidade de redirecionar tempo e capital para fins de maior utilidade social ou realização pessoal.

Faz então sentido perguntar: se dinheiro e felicidade deixam de caminhar juntos depois de certo ponto, por que continuamos medindo o nosso sucesso pela quantidade de dinheiro que conseguimos acumular.

Talvez a resposta do meu orientador de doutorado, um célebre economista, não tenha sido tão insensata assim. O bobo não era ele.

Pobre, rico ou classe média? Calculadora mostra sua posição na distribuição da renda no Brasil.

Os trabalhadores que 'dão adeus à CLT' atrás do sonho de viver fazendo vídeos de IA.

Chance de quem nasce rico ficar no topo é sete vezes a do pobre de enriquecer.

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Fontes

Informação baseada em material público de Folha Mercado, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.

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