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Economia

Bolsa antes da eleição: vale carregar ações do último pregão até segunda-feira?

Último pregão antes da eleição traz risco de gap e ações já valorizadas. Veja cuidados para day trade, swing trade e uso de opções.

7 min de leitura
Economia — imagem padrão

A sexta-feira (23) será o último pregão antes do segundo turno das eleições. Para quem opera na Bolsa, a sessão traz uma decisão que vai além de tentar antecipar se o mercado vai subir ou cair: vale terminar o dia comprado em ações e carregar essa posição até segunda-feira.

A estratégia pode permitir ao investidor capturar já na abertura um eventual movimento favorável depois das urnas. Mas também significa atravessar o fim de semana com o mercado fechado, sem conseguir ajustar a posição caso as expectativas mudem.

Para quem faz day trade, o risco termina quando a operação é zerada na própria sexta. Para quem carrega a posição por mais de um pregão — o chamado swing trade —, parte importante do risco começa justamente depois do fechamento.

Há ainda um complicador: muitas ações ligadas à economia doméstica já acumularam fortes altas entre o primeiro e o segundo turno. Assim, mesmo que determinado cenário esperado pelo mercado se confirme, parte desse movimento pode já estar incorporada aos preços.

O dilema para sexta-feira, portanto, envolve duas perguntas: quanto ainda há para ganhar se o cenário esperado se confirmar e quanto pode ser perdido se a abertura de segunda vier na direção contrária.

Por que Ibovespa caiu 1,15% hoje? Os fatores que explicam – além da cautela eleitoral.

O foco no dia fica voltado para levantamento do Datafolha, mas cenário externo negativo também contribuiu para queda dos mercados.

Último pregão exige cuidado com tamanho e alavancagem.

Para Victor Hugo Riffel, head da Mesa Trader da Ável, a principal mudança no último pregão antes da eleição deve estar no tamanho da posição. Quanto maior a volatilidade, maior tende a ser o valor financeiro colocado em risco com a mesma quantidade de ações ou contratos.

Riffel recorre ao conceito de VaR (Value at Risk, ou valor em risco), usado para estimar quanto uma posição pode perder em determinado cenário. Na prática, a leitura é simples: se o mercado começa a oscilar mais, manter exatamente a mesma exposição de um pregão comum aumenta o risco da operação.

Eduardo Tellechea Cairoli, CEO e fundador da Privatto Multi Family Office, também recomenda separar convicção de exposição. Para ele, acreditar fortemente em determinado resultado não significa que o tamanho da posição deva aumentar na mesma proporção.

O cuidado vale também para a concentração. Ter Banco do Brasil, uma construtora e outra ação ligada à queda dos juros pode parecer diversificação, mas os papéis podem reagir simultaneamente caso haja uma mudança brusca na percepção sobre risco fiscal ou juros.

Para quem carrega até segunda, o principal risco é o gap.

O maior problema para quem pretende atravessar a eleição posicionado é o chamado gap de abertura — quando uma ação começa o pregão seguinte muito acima ou abaixo da cotação anterior.

Entre o fechamento de sexta e a abertura de segunda não existe negociação na B3. Isso reduz a eficácia de uma ferramenta bastante usada para limitar prejuízos: o stop loss, ordem programada para tentar encerrar a posição quando o preço atinge determinado nível.

É por isso que Jason Vieira, economista-chefe da Lev, adota uma postura cautelosa para este fim de semana.

A avaliação dos especialistas, porém, não significa que não possam existir oportunidades. O ponto é que a relação entre risco e retorno muda porque o investidor perde a capacidade de reagir enquanto ocorre o principal evento que motivou a operação.

Opções podem limitar o risco — mas têm custo.

Uma forma de limitar previamente parte desse risco é recorrer ao mercado de opções.

Uma opção comprada dá ao investidor um direito sobre determinado ativo e, para quem compra o contrato, a perda máxima fica limitada ao valor pago pelo prêmio. Calls são opções de compra; puts são opções de venda e podem ser utilizadas, entre outras estratégias, para proteger uma carteira contra quedas.

Mas atravessar uma eleição protegido tem custo.

Depois da votação, boa parte desse prêmio desapareceu: a volatilidade implícita caiu para cerca de 25%-26% no BOVA11, 34%-36% em Petrobras e 40%-42% em BBAS3. É o chamado volatility crush, ou queda rápida da volatilidade implícita depois de um evento que concentrava incerteza.

Isso ajuda a explicar por que acertar a direção não basta. Uma opção comprada antes da eleição pode estar cara justamente porque outros investidores também estão procurando proteção ou apostando em um movimento forte.

Saiba mais: Opções de BOVA11, Petrobras e BB mostram onde o risco está mais caro para o segundo turno.

Quanto do resultado já está no preço.

Além do risco do gap, existe uma segunda questão importante para quem pensa em carregar ações: o chamado trade eleitoral já produziu movimentos expressivos desde o primeiro turno.

Empresas ligadas à economia doméstica, small caps, varejistas e construtoras avançaram fortemente durante parte desse período. Rafael Perretti, economista e analista da Clear Investimentos, destaca que algumas ações de menor capitalização chegaram a acumular ganhos de 30%, 40% ou até 50%.

A sensibilidade funciona para os dois lados. Em um cenário favorável às expectativas que ajudaram a produzir essas altas, os papéis ainda podem avançar. Mas também podem apresentar realização caso boa parte da notícia já esteja incorporada ao preço.

Cairoli chama atenção para o conhecido movimento de “buy the rumor, sell the news”, ou “compre no boato e venda no fato”: os investidores antecipam determinado cenário, os preços sobem e, quando ele finalmente se confirma, parte do mercado aproveita para realizar lucros.

Essa discussão é particularmente relevante para ações que estiveram no centro do movimento entre os turnos. Banco do Brasil (BBAS3), B3 (B3SA3), Cyrela (CYRE3), varejistas e outras empresas sensíveis aos juros aparecem entre os exemplos citados pelas fontes.

Acertar o Ibovespa não significa acertar a ação.

As eleições anteriores ajudam a mostrar por que esse tipo de operação não depende apenas da direção geral da Bolsa. Além de a reação mudar entre o primeiro e o segundo turno, índice e ações individuais podem seguir caminhos bastante diferentes.

Em 2018 e 2022, Ibovespa, Banco do Brasil, Petrobras e Itaú subiram no primeiro pregão após o primeiro turno. Depois da votação definitiva, porém, o padrão mudou.

Ibovespa e ações: reação no 1º pregão após o 1º turno.

Fonte: Rocket Trader (B3). Elaboração: Rafael Perretti. Metodologia: reação = fechamento do pregão seguinte a cada turno em relação ao fechamento do pregão anterior.

Em 2018, os quatro ativos terminaram o primeiro pregão após o segundo turno em queda. Já em 2022, o Ibovespa avançou 1,31% e o Itaú subiu 2,91%, enquanto Banco do Brasil caiu 4,64% e Petrobras recuou 8,47%.

Os números reforçam dois cuidados para quem pretende atravessar o fim de semana posicionado: a reação do primeiro turno não necessariamente se repete no segundo e acertar a direção do Ibovespa não significa acertar a direção de uma determinada ação.

Para Perretti, o histórico oferece mais pistas sobre a possibilidade de movimentos fortes do que sobre a direção exata deles.

Afinal, vale carregar ações até segunda-feira.

Carregar ações até segunda pode ampliar o ganho se o mercado reagir na direção esperada, mas também expõe o investidor a uma perda que ele não conseguirá administrar durante o fim de semana.

Por isso, a relação entre risco e retorno depende do ativo, do tamanho da posição e da perda que cada um está preparado para suportar.

Há uma diferença objetiva entre operar apenas a sexta-feira e atravessar a votação: quem carrega uma ação aceita ficar exposto a uma possível reprecificação sem poder ajustar a posição até a abertura de segunda.

Reduzir o tamanho da posição, evitar excesso de alavancagem, limitar previamente a perda por meio de determinadas estruturas com opções ou simplesmente preservar liquidez para operar depois de conhecido o resultado estão entre as alternativas mencionadas pelos especialistas e analistas.

Esperar até segunda-feira pode significar perder parte de uma eventual alta inicial. Em contrapartida, permite tomar uma decisão depois que uma das principais incertezas tiver sido retirada do caminho.

Antes de perguntar quanto uma ação pode subir depois da eleição, portanto, há uma questão anterior para quem pretende terminar a sexta-feira comprado.

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