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Cultura

Livro enxerga 'Transa', cultuado álbum de Caetano Veloso, sob a ótica do afeto

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Livro enxerga 'Transa', cultuado álbum de Caetano Veloso, sob a ótica do afeto

Título: O livro do disco – Transa – Caetano Veloso.

Em bom título da coleção “O livro do disco”, da editora Cobogó, a escritora carioca Mateus Baldi tenta ir além do discurso recorrente sobre “Transa” com narrativa que abarca inclusive o revival do álbum por Caetano em show de 2023.

Baldi enxerga “Transa” como um “disco-mapa” do Brasil, um mapa desenhado a partir dos afetos do artista. É a partir dessa ótica que a escritora – nutrida por alentada pesquisa para tese de mestrado defendida em 2023 – disseca “Transa”, diluindo na narrativa o faixa-a-faixa recorrente em títulos da coleção “O livro do disco”.

Disco Transa de Caetano Veloso é tema da coluna de Nelson Motta.

A narrativa começa com Caetano ainda no Brasil, antes de partir em 1969 para o exílio europeu forçado pela ditadura. A rigor, o fugaz ponto de partida é 1958, ano em que João Gilberto (1931 – 2019) detonou a revolução sonora que ecoou na interiorana cidade baiana de Santo Amaro da Purificação (BA), terra natal de Caetano e bússola que ainda hoje parece orientar o baiano já octogenário.

Sem acesso a Caetano Veloso, a escritora recorreu à pesquisa em jornais e revistas da época – e também a entrevistas com personagens relevantes no álbum, como Jards Macalé (1943 – 2025), o baterista Tutty Moreno e a cantora Angela Ro Ro (1949 – 2025) – para traçar a rota que levou Caetano à gênese de “Transa”.

Sem os rebuscamentos das dissertações acadêmicas, o texto de Mateus Baldi é fluente e organiza as informações e as ideias da autora com objetividade jornalística.

Sob o prisma da narrativa, “O livro do disco – Transa – Caetano Veloso” soa como robusta reportagem sobre os meandros de um álbum que, como reforça Baldi, sempre esteve presente na trajetória de Caetano desde antes do culto gerado a partir da fase do cantor com a BandaCê.

Baldi caracteriza “Transa” como “amuleto” concebido por Caetano no exílio após uma visita ao Brasil. “(É um disco) feito com uma banda extraordinária, em interação total, (que) capturava a atmosfera londrina enquanto recuperava um Brasil, construindo para si um mapa acústico”.

Teria sido de Péricles inclusive a sugestão para que o arranjo da música “Nine out of ten” incorporasse o reggae, ritmo jamaicano que começava a ganhar o mundo naquele início dos anos 1970, mas ainda não chegara ao Brasil.

O livro prende a atenção do leitor, entre detalhes da gravação no estúdio Chapell's Recording Studios, descrições das faixas (às vezes sob ótica pessoal) e informações sobre as referências embutidas por Caetano nas músicas do álbum, sobretudo em “Triste Bahia”, música feita sobre poema barroco de Gregório de Mattos (1636 – 1696), além do relato de dissonâncias posteriores do artista com o baterista Áureo de Souza já em shows no Brasil.

Em essência, o livro sobre o disco “Transa” oferece bom painel sobre momento efervescente da discografia de Caetano Veloso em narrativa afetuosa sem, a rigor, acrescentar muito sobre um álbum já exaustivamente dissecado.

Que venham livros sobre outros discos de Caetano Veloso.

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