Embora não possam falar, os animais encontram outras formas de demonstrar amor e gratidão em cada gesto: no olhar, na lambida, na bicada ou no simples abanar do rabo.
Não importa a espécie, todos compartilham da mesma essência: uma pureza capaz de tocar o coração até mesmo de quem passa por um momento difícil.
É justamente a partir dessa conexão entre animais e humanos que a instituição Natureza Conecta, organização sem fins lucrativos que mantém um sítio em Itu (SP), desenvolveu um projeto voltado à ressocialização de crianças e adolescentes por meio da terapia assistida por animais.
A iniciativa também foi levada à Fundação Casa de Itapetininga (SP). Ao g1, Daniela Gurgel, fundadora da ONG, explicou que o trabalho parte da premissa de que adolescentes em medida socioeducativa precisam primeiro se sentir seguros para, então, conseguirem se abrir e estabelecer vínculos.
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Na unidade de Itapetininga, dois adolescentes, que optaram pelos nomes fictícios “Gabriel” e “Gustavo”, participaram do projeto e contaram ao g1 como a convivência com os animais transformou suas vidas e os ajudou a compreender melhor os próprios sentimentos.
O contato com os animais me deixou mais calmo. As atividades me ajudaram a desacelerar um pouco, pensar melhor antes de agir e ficar mais tranquilo. Acho que esse contato com os animais e com a natureza fez diferença para mim", disse Gabriel.
Os adolescentes também compartilharam quais são seus animais preferidos e, curiosamente, identificaram neles características que refletem suas próprias emoções e experiências.
Gustavo disse que percebeu que os cavalos são capazes de sentir as emoções das pessoas e manifestar sentimentos semelhantes aos dos seres humanos.
Por isso, para Gabriel, a experiência no campo transformou sua percepção sobre a vida. Antes, o jovem apresentava um comportamento mais recluso, mas agora se sente confortável para compartilhar os sentimentos com familiares e amigos.
Para Gustavo, a experiência foi ainda além. Segundo o adolescente, assim que sair da medida socioeducativa, ele pretende fazer parte da equipe da fazenda e cuidar dos animais.
Segundo Daniela, os encontros entre crianças, adolescentes e animais são realizados semanalmente, seguindo uma metodologia estruturada da terapia. As sessões são conduzidas por uma equipe multidisciplinar formada por psicólogos, pedagogos e médicos veterinários.
No caso de crianças e adolescentes acolhidos, os grupos são recebidos na fazenda da organização, em Itu. O mesmo ocorre com os adolescentes das unidades da Fundação Casa de Cerqueira César (SP) e Itapetininga, que são levados semanalmente de ônibus até o local.
Já para os menores de Sorocaba (SP), a proximidade permite que os animais sejam levados até as unidades da Fundação Casa, onde são realizadas as sessões.
O deslocamento é planejado de acordo com as necessidades de cada espécie. Antes da saída, a equipe avalia as condições de saúde e o comportamento do animal, além das condições climáticas, do tempo de percurso e da estrutura disponível no local que irá recebê-lo", explica Daniela.
Atualmente, vivem na fazenda cerca de 40 animais, entre cães, cavalos, pôneis, vacas e bois, cabras, porcos e aves. Em relação à terapia, segundo a fundadora, as características de cada espécie permitem trabalhar diferentes objetivos ao longo do processo.
Não se trata de uma atividade recreativa ou simplesmente de proporcionar contato com os animais. Cada interação faz parte de um processo planejado, acompanhado tecnicamente e orientado para objetivos relacionados à saúde mental e ao desenvolvimento socioemocional desses adolescentes", diz.
Para Daniela, a convivência com os animais cria oportunidades para que crianças e adolescentes aprendam, na prática, a cuidar, observar e respeitar o outro. Ao perceber as reações de cada espécie e entender seus limites, eles também passam a refletir sobre a própria forma de agir e se relacionar.
A fundadora reforça, no entanto, que as interações com os animais não substituem o trabalho de psicólogos ou pedagogos.
Ao g1, o presidente da Fundação Casa, Acacio Miranda, destacou que as terapias têm apresentado resultados positivos na sociabilidade e na saúde emocional dos participantes.
Daniela aponta que nem todos os animais participam das atividades da mesma forma ou com a mesma frequência. A presença de cada espécie é definida de acordo com o objetivo terapêutico e pedagógico, o perfil do grupo e, principalmente, as condições físicas e emocionais de cada animal.
Ela explica ainda que o cuidado com os animais acontece diariamente, mesmo quando não há atendimento. A rotina inclui.
Alimentação adequada para cada espécie;Limpeza dos espaços;Higiene;Acompanhamento do comportamento;Momentos de descanso;Estímulos para que possam expressar seus comportamentos naturais;Vacinação e vermifugação em dia;Acompanhamento veterinário regular.
Durante as atividades, a equipe observa sinais de conforto, cansaço, medo ou estresse. Caso algum animal demonstre desconforto, ele é retirado da atividade ou a dinâmica é adaptada.
Também respeitamos a afinidade que pode surgir entre o adolescente e determinado animal. Às vezes, um jovem se identifica com a história ou com a forma de interação de um co-terapeuta específico, e esse vínculo passa a fazer parte do processo.
Mas essa aproximação nunca é forçada, nem para o adolescente nem para o animal", conclui.
*Colaborou sob supervisão de Larissa Pandori.
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