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Pesquisadores paulistas transformam sobra de feijão carioca em proteína vegetal sustentável para a indústria
Um dos alimentos mais tradicionais da mesa brasileira está prestes a ganhar uma nova utilidade na cadeia alimentar. Cientistas do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), sediado em Campinas (SP), desenvolveram um concentrado proteico a partir das chamadas “bandinhas” do feijão carioca — grãos partidos e comercialmente desvalorizados que sobram do processo de beneficiamento da leguminosa.
A inovação promete abrir caminho para a criação de novos produtos industrializados e reduzir a dependência da indústria nacional de matérias-primas importadas, como as proteínas vegetais de soja e ervilha.
Aproveitamento de subprodutos agrícolas
O Brasil figura como o segundo maior produtor mundial de feijão, sendo a variedade carioca responsável por cerca de 54% de uma safra anual estimada em 3 milhões de toneladas. No entanto, o processo de triagem das empresas gera entre 1% e 5% de grãos quebrados, que perdem apelo comercial.
Para agregar valor a esse resíduo, pesquisadores da Plataforma Biotecnológica Integrada de Ingredientes Saudáveis (PBIS) — consórcio criado em 2021 com apoio da FAPESP que une o Ital, a USP, a Unicamp, a Fundação Shunji Nishimura e nove empresas do setor — aplicaram uma técnica de processamento mais sustentável.
Processo sustentável e perfil nutricional completo
O ingrediente é extraído por meio de fracionamento a seco. Ao contrário dos métodos tradicionais de extração úmida, essa tecnologia consome menos água e energia e descarta o uso de solventes químicos. O grão é moído até virar uma farinha integral e separado mecanicamente em duas frações:
Fração Proteica: Apresenta concentração de 40% a 50% de proteína. Testes laboratoriais revelaram um perfil completo de aminoácidos essenciais, atingindo os parâmetros recomendados pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) sem a necessidade de complementação com cereais.
Fração Amilácea: Rica em amido, retém de 10% a 20% de proteína e é integralmente aproveitada para o desenvolvimento de outros alimentos.
Além disso, um pré-tratamento térmico aplicado antes da moagem reduziu em até 95% os fatores antinutricionais do feijão (como fitatos e taninos), responsáveis por desconfortos digestivos. O resultado é um insumo com digestibilidade superior a 60%, de sabor neutro e cor clara, superando a rejeição ao gosto residual de terra comum a outras proteínas vegetais.
Aplicações práticas e escala industrial
Para demonstrar a viabilidade no mercado, a equipe do Ital formulou um portfólio de produtos que inclui:
Pó instantâneo para cappuccino sem açúcar (5g de proteína por porção);
Bebidas vegetais fermentadas combinadas com polpas de manga e maracujá, sem adição de corantes ou aromas artificiais;
Salgadinhos tipo snack (nas versões doce, salgada e neutra) enriquecidos com até 8% de proteína a partir da fração amilácea.
A tecnologia já atingiu os níveis 5 e 6 de TRL (Technology Readiness Level), escala que mede a maturidade de uma inovação até o nível máximo 9. O insumo passa por validações em escala industrial junto à SL Alimentos, uma das indústrias parceiras do consórcio. Os pacotes tecnológicos desenvolvidos serão oferecidos ao mercado por meio de licenciamento, priorizando inicialmente as empresas investidoras da plataforma.
A
Amin Feres
Redator
Reportagem e curadoria do ULTRA NOTÍCIAS — Corumbá, MS e Brasil.
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